quinta-feira, 27 de setembro de 2012

A COR DA ROMÃ - 1968

Sayat Nova, 1968
Sergei Parajanov

Formato: AVI
Aúdio: Russo
Legendas: Português
Duração: 79 minutos
Tamanho: 1,36 Gb
Servidor: Zippyshare
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SINOPSE
Um relato místico e histórico sobre a vida, o trabalho e o mundo interior do poeta e trovador armênio do século XVIII, Aruthin Sayadin, popularmente conhecido como Sayat Nova ("o Rei da Canção"). O filme evoca a infância do poeta e a sua juventude, os seus dias de trovador na corte do rei Heraclius II da Geórgia e os seus últimos dias passados num mosteiro.
Fonte: Cineplayers


 ANÁLISE

 O moderno em A Cor da Roma
 por Tiago Mesquita 

No século XX, a novidade foi a doença infantil das vanguardas. O grande crítico de arte Harold Rosenberg chamou essa mania de tradição do novo. A ideia foi criada no momento em que a inovação havia se tornado uma obsessão histórica e servia, inclusive, para incrementar o preço das obras de arte. Na época, para alguns poucos e ruins, não inovar podia ser um tabu. E a inovação passou a ser feita em uma direção pré-determinada. Mais que isso, a busca por inovação se divorciou da procura de novos sentidos para o mundo.

Hoje em dia, essa ideia de inovação envelheceu. Parece surrada e foi substituída por outras manias, que sempre vão fazer a arte se pensar como uma disciplina isolada do resto das coisas. Mesmo assim, ainda existem os que falam do prazo de validade de formas de organizar o material artístico. Em alguns julgamentos, a obra é enquadrada por usar construções velhas demais, que não correm de acordo com o ritmo da produção recente.

Não sei contar quantas vezes eu escutei que um trabalho bom não era “contemporâneo” o suficiente. Como se ele precisasse ter a velocidade de um software ou de uma presilha de cabelo.
Por isso, para Rosenberg, a força estética e mesmo a originalidade se dava pela reação da obra com a história. Em Objeto ansioso, ele afirma certeiro: “a originalidade é uma consequência da longa experiência de suportar a ansiedade e persistir (…). Fora isso, toda espécie de excelência pode ser copiada”. A originalidade tinha algo de resistência e de persistência em uma forma de significação do mundo. Que, aliás, não pretende aderir a nada, mas contar algo que é próprio de uma experiência singular.

Acho que as vanguardas nasceram dessa urgência. Da vontade da arte querer se tencionar com o mundo. A adesão a uma forma totalmente codificada, temas nobres e tal não pareciam dizer nada. A arte acadêmica era vista como algo que não tinha nada para dizer sobre a vida dos artistas em Paris, por exemplo.

Assim, nas artes visuais pelo menos, essa tradição do novo nasceu como uma não-aceitação dos descaminhos da pintura clássica e da pintura romântica. Os vilões eram as formas clássicas de representação, sobretudo, a feição que elas assumiram em finais do século 18. Tal modo de pintar havia se tornado sem sentido. Era uma forma de arte que desligava o artista do mundo.

Em um determinado momento, isso também aconteceu com o modernismo. Para alguns artistas, inovar se tornou uma obrigação e a coisa desandou, como uma nova forma de censura.

Mas eles ajudaram muito mais que atrapalharam. Convenhamos, a pintura acadêmica era dura de engolir. Anjinhos esvoaçantes cavernas misteriosas e coisas do gênero. Querem um exemplo? Dúvido que alguém aguente ver uma exposição de tachos do Pedro Alexandrino, é preciso muita paciência. E na França a coisa era ainda mais radical. Aqueles artistas que tratavam a tinta como um sopro divino. Figuras que não pareciam  pintadas, mas sopradas a luz na tela.

Tanto que o kitsch se apropriou dessa pintura rapidamente. Hoje vemos esse tipo de pintura nas capas de caderno de meninas moça, livros de misticismo e por aí vai. Por isso a busca por novos horizontes foi fundamental. Sem contar que nos trouxe algumas das obras mais fortes de todos os tempos.

Artistas como Manet, Degas, Courbet queriam mais, queriam uma pintura em que o olhar fragmentado, as relações tensas com a cidade e a sujeira da vida moderna participassem. Eles gostavam do mundo confuso e repleto que se formava. Tiravam relações estéticas daí. Tencionavam seus modelos de visualidade com isso. Seurat, por exemplo, tinha um olhar muito simpático para as distrações populares. Para ele, era lá que a vida moderna acontecia em sua plenitude.

Esse gosto pelo popular, muitas vezes, foi um gosto de resistência. Muitos artistas apostavam em concepções de visão menos doutas como uma forma de se contrapor a racionalidade mais convencional e institucionalizada. Alguns, por exemplo, se voltaram para formas mais tradicionais de visualidade. Para eles isso era uma resposta tanto a falta de viço acadêmico. Mas curiosamente, a crítica vinha acompanhada de uma recusa do moderno.
A especialização da arte, bem como sua academização, era vista como um produto da modernidade. As formas mais tradicionais eram romantizadas. Coisas de um tempo em que essa racionalidade tecnicista e sem graça não existia.

O pintor exemplar disso é Paul Gauguin. Para escapar de uma banalização da vida moderna, ele procurou formas e temas não ocidentais. Foi ao Taiti, onde a vida lhe parecia mais honesta e verdadeira e as cores se mostravam mais viçosas. Esse movimento foi comum. Uma procura de relações menos dominadas. Claro que existia algo de mitológico aí, derivado do mito do bom selvagem. Mas artistas como Gauguin procuravam relações menos controladas e mais prazerosas com a visualidade.

Outros artistas utilizaram outros esquemas tradicionais– sejam da arte não europeia sejam os esquemas de escolas da Europa pré-moderna. De pronto, penso nos Nabis, nos Pré-rafaelitas (que me parecem piores) e na pintura simbólica do Odilon Redon.
No cinema, as formas dramáticas tradicionais foram chutadas igual cachorro morto pelo pessoal que quis fazer um cinema moderno. Muitos dos melhores nomes queriam afirmar a peculiaridade de seu meio criativo e se lançaram numa aventura do novo que nem sempre parece muito nova, mas vá lá.

O caso é que eles queriam utilizar esses novos recursos técnicos para fazer algo que não havia sido feito em outros meios. A técnica, em si, já era nova, mas alguns cineastas já se tornaram temerosos com a sua possível academização. O meio já nasceu moderno, mesmo assim, demorou alguns anos para encontrar a sua vocação. Eles não queriam ser um teatro filmado, uma fotografia em movimento e nem nada disso. Por isso foram tradicionalistas do novo. Tanto que os seus criadores falam mais de linguagem do que de forma.

No cinema também houve os que procuraram essa ousadia nas formas mais tradicionais de arte. Em seu filme A cor da romã (1968), Sergei Parajanov trabalhou coms formas de narrativa, teatro e figuração da tradição bizantina. Nesse arsenal achou um jeito de fazer filmes mais arejados. De formas distintas, outros eslavos trabalharam com o seu arsenal histórico. Penso em Maliévitch, Béla Bartók, Penderecki e, mais recentemente, Ilya Kabakov (sobretudo no seu trabalho com sonhos, exposto em 2005 na Serpentine Gallery). O curioso é que o artista parece muito mais tradicional do que o cinema considerado tradicional. Acredito que com isso ele trabalha sentidos do moderno como, cá entre nós trabalhou um Ariano Suassuna, por exemplo.

O filme de Parajanov entrelaça vida e obra do poeta armênio Sayat Nova. Como em um poema épico, a saga acontece em uma sucessão de figuras. O filme é separado em episódios simbólicos ou revelações. São imagens com a câmera parada, muito parecidas com as figuras da tradição que ele retoma. O filme é uma sucessão de iluminuras entremeadas por som e texto.

Não são episódios da vida do escritor. Por isso não seguem nenhuma ordem temporal rígida. Seguem uma ordem de descobertas de nova. O mundo parece se aproximar e se afastar dele. Nessa procura de religar-se ao sentido das coisas, Parajanov faz um filme em verso. Aliás, versos metrificados. Por vezes, o filme se parece uma parábola, com revelações estéticas e místicas; em outras, um caminho da sabedoria (quase como os escritos de Santo Agostinho). Uma infância cheia de viço se perde nos caminhos da vida. A poesia surge como uma forma de manejar os significados depois dessa fratura incurável.

Nova é um personagem torturado. Que teve a vida torturada. O saber o afastou da vida que ele levava. As obrigações o distanciaram dos significados que ele compartilhava e recriava com o povo que viveu com ele até a sua juventude. Através da poesia ele quer se reaproximar da vida do passado, quer voltar a uma vida simples, compartilhada. Essa busca ele empreende até a morte. A arte é um modo de recuperar o seu destino. De fazer com que as coisas voltem a ter sentido.

Continue lendo no no blog do Guaciara



5 comentários:

  1. Cara, meus parabéns pelo blog, que traz filmes sensacionais. Daria pra você dar uma olhada nesse filme ? Pois a parte 7 dele não está mais disponível para download. Um abraço.
    Paulo

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  2. Meu caro, esqueça meu comentário anterior. Eu que havia feito algo errado mas já consegui resolver. Um abraço.

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  3. Vocês podem consertar o link?

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  4. Hey people! Rola repostar essa raridade?

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  5. O link está expirado. Quero muito assistir ao filme!

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