sexta-feira, 5 de outubro de 2012

REPULSA AO SEXO - 1965

Repulsion, 1965
Legendado, Roman Polanski
Classificação: Excelente

Formato: AVI
Áudio: inglês
Legendas: português
Duração: 105 min.
Tamanho: 1,36 GB
Servidor: 1Fichier (Parte única)

SINOPSE
Em Londres Carol Ledoux (Catherine Deneuve) é uma bela mulher que é sexualmente reprimida e vive com sua irmã mais velha. Ela constantemente resiste aos assédios do seu namorado e também desaprova o amante da irmã. Quando esta viaja com ele em férias, Carol fica sozinha no apartamento e se afunda em uma profunda depressão, passando a ter várias alucinações.

Fonte: Adorocinema
The Internet Movie Database: IMDB - NOTA IMDB - 7.8


ANÁLISE

Respondendo às críticas – as quais, aliás, não procedem de todo – de que teria atingido excessivo academicismo com o recente O Pianista, Roman Polanski afirmou que as considera um elogio. O diretor polonês, a bem da verdade, não teria por que não se orgulhar de sua formação acadêmica: graduou-se na escola estatal de cinema de Lódz, que, além de contar com os melhores profissionais na área de cinema do país como professores, dispunha de excelente condição material e ainda mantinha estreita conexão com o esquema de produção apadrinhado pelo Estado, o que permitia que seus alunos fizessem assistência para cineastas já consagrados. Admitido na escola em 1954, num período em que o cinema polonês estava em progressivo distanciamento com relação ao filme de propaganda ideológica comunista, Polanski, assim como outros de sua geração (Andrzej Wajda, Jerzy Skolimowski), rebelou-se contra os dogmas do realismo socialista, cujo esquematismo, em nada realista, recebia crescentes oposições a partir da morte de Stalin em 1953.

Muito cedo em sua carreira como diretor, Polanski transporia as barreiras culturais e conquistaria o Ocidente com filmes que até podem espelhar – como querem muitos analistas – a visão de mundo turva e degradante oriunda da realidade do leste europeu (e mais particularmente da Polônia) nos anos da Segunda Guerra e do stalinismo, mas que possuem um inegável apelo universal, através de histórias que deflagram a crueldade e a dor como aspectos marcantes da existência humana. Não há como negar, também, a influência da tortuosa trajetória de vida de Polanski na sua filmografia, o que inclui desde a infância refugiada no gueto de Varsóvia, pulando de família em família para despistar a perseguição nazista (situação desenvolvida mais explicitamente em O Pianista, mas que pode ser a origem dos universos claustrofóbicos de quase todos seus filmes, onde alguém sempre é – ou pensa estar sendo – perseguido), até o assassinato da esposa, que estava grávida, pela gangue de Charles Manson em 1969 e a acusação de ter estuprado uma garota de treze anos uma década depois, em 1979.


O mal parece inevitável em seus filmes, da mesma forma que foi em sua vida. Mas não há um superlativo antagonista entre bem e mal, pois este último atravessa todo o corpo da sociedade de modo a tornar-se indistinto. Impulsos amorais e imorais sobrepujam a grande moral, e desse deslize de valores nasce o intercâmbio, tão recorrente em Polanski, entre vítima e algoz. São salientados, assim, os aspectos dúbios compreendidos por uma microfísica das relações: o jogo do poder é também o jogo do domínio sexual e da interdependência entre dominador e dominado, sendo que estes se revezam em seus papéis – idéia presente em Repulsa ao Sexo e levada ao extremo com Lua de Fel.

A organização do espaço nos filmes de Polanski obedece a duas principais – e radicais – determinações: de um lado o confinamento geográfico, limitando a resolução da história às paredes de uma residência (A Morte e a Donzela), ou aos arredores de uma praia com um castelo (Cul-de-sac); do outro lado a indefinição labiríntica quanto às dimensões do território kafkiano, chegando a configurar toda a cidade, ou o país, ou o mundo, como um conluio inextricável, à maneira do espaço coletivo e unanimista do antigo realismo americano (Busca FrenéticaChinatownO Último Portal). Ou talvez não haja tal separação, com o casual e o conspiratório compartilhando um mesmo terreno no qual se confundem. Nesse caso, não importa se partindo dos vizinhos mais próximos (O Bebê de Rosemary), os filmes de Polanski querem buscar a sociedade na sua amplitude.

Repulsa ao Sexo (Repulsion) estaria inserido nessa lógica terceira: a influência dos agentes externos e do tecido social circundante não anula a importância do fator intrínseco, desde a casa e a família até a própria mente (e sua subversão). Feito em 1965, o filme é a estréia internacional de Roman Polanski e traz a atriz Catherine Deneuve, no auge de sua beleza, interpretando Carol, mulher retraída e tímida que aos poucos revela uma complexa problemática sexual. Como o próprio diretor assume em autobiografia, a ansiedade de fazer seu primeiro longa no Ocidente era tamanha que ele teria aceitado até menos do que a já pequena quantia que recebeu do Compton Group, que financiou Repulsa ao Sexo (e que estava acostumado a produzir o chamado pornô soft-core).

Já na seqüência dos créditos iniciais, com primeiríssimos planos do olho de Carol (a princípio imóvel e depois se mexendo e piscando),Repulsion estabelece um diálogo com Hitchcock que será retomado mais intensamente em O Inquilino (1976), filme que faz alusões explícitas a PsicoseJanela Indiscreta Vertigo. A câmera, em seguida aos créditos de Repulsion, se distancia e mostra o rosto inteiro de Carol, absolutamente impassível no salão de beleza onde trabalha como manicura. Depois, no caminho para casa, ela é assediada por um desconhecido. O espectador é introduzido no filme como um voyeur, sim. Sua participação, no entanto, é revestida de ambigüidade: não vê apenas as andanças de Carol, frágil e desejável ao mesmo tempo (tensão que o filme trabalha constantemente), mas também as expressões de desconforto e medo com que ela responde aos assédios. Podemos desejar Carol da mesma maneira que Colin, o rapaz boa-pinta e insistente que se interessará por ela num momento seguinte. Em qualquer filme de gênero o romance seria dado como certo, mas nosso desejo de conquista, projetado nesse personagem de Briton Jon Fraser (espontâneo e inocente na sua aparência de bom moço), acaba rapidamente frustrado pelo inquebrantável e doentio bloqueio de Carol, sempre inexpressiva e mecânica nas suas atitudes.


Se em O Inquilino a conspiração que quer pôr fim à vida do protagonista parece rondar em torno dos moradores do prédio para o qual ele se mudou, em Repulsa ao Sexo o universo perseguidor é tanto a sociedade machista (o comportamento do amante da irmã mais velha de Carol; as reclamações da companheira de trabalho e das suas clientes sobre os homens; os desconhecidos que a assediam na rua; Colin e a obsessão em querer saber por que motivo ela age tão estranhamente) como a exigência/valorização de beleza na mulher por parte da cultura ocidental contemporânea (a própria escalação de Catherine Deneuve, ela mesma um objeto sexual explorado pela indústria cinematográfica; o fato de Carol trabalhar num salão de embelezamento). Ao deflagrar a objetificação/fetichização da mulher na cultura de massa, e as conseqüências drásticas que isso pode ter, o filme se antecipa um pouco às teorias feministas (como as de Laura Mulvey, por exemplo) que viriam a mapear a essência paternalista, escopofílica e falocêntrica do cinema de gênero hollywoodiano.

Estruturado como autêntico thriller psicológico – supremacia da sugestão, ambigüidade narrativa (os estupros, as rachaduras na parede e as mãos que saem do escuro para agarrá-la ocorrem ou são delírios?), ambientes densos, o cenário se modificando conforme a personagem –, Repulsa ao Sexo se mostra perturbador e bastante rico em nuances (objetos de caráter simbólico, olhares cujas direções são reveladoras). Os êxitos estéticos de Polanski nesse filme costumam ser tão ou mais elogiados que o tratamento cuidadoso dado a Carol, personagem simultaneamente angelical e traiçoeira, à qual foi consignada tanta indeterminação que ora dividimos com ela a revolta contra o machismo opressor (o cobrador de aluguel querendo se aproveitar) ora nos resignamos com sua frieza (o assassinato do rapaz que aparentemente tinha se apaixonado). A abordagem aos moldes de um caso clínico, como aponta o desfecho, cria um distanciamento enorme – mas é também o que mantém a força de Repulsa ao Sexo, filme contundente na sua recrudescência gradativa.

Análise retirada do site Contracampo








































































Nenhum comentário:

Postar um comentário

Política de moderação do comentários:
A legislação brasileira prevê a possibilidade de se responsabilizar o blogueiro pelo conteúdo do blog, inclusive quanto a comentários. Dessa forma, o Convergência Cinéfila reserva a si o direito de não publicar comentários que firam a lei, a ética, ou quaisquer outros princípios da boa convivência. Para a boa convivência, o Convergência Cinéfila formulou algumas regras:
Comentários sobre assuntos que não dizem respeito ao filme postado poderão ser excluídos;
Comentários com links serão automaticamente excluídos;
Os pedidos de filmes devem ser feitos no chatbox.

Att.,
Convergência Cinéfila