sábado, 21 de setembro de 2013

ERA UMA VEZ NA AMÉRICA - 1984

Once Upon a Time in America, 1984, Sergio Leone.

Classificação: Excelente
Formato: MKV (Excelente)
Áudio: Inglês/Italiano
Legendas: Português
Duração: 229 minutos
Tamanho: 1,36GB
Servidor: Mega (4 Partes)
Links:

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Parte 2
Parte 3
Parte 4

Sinopse: O filme é um conto épico de um grupo de gângsters judeus na cidade de Nova York, na primeira metade dos anos 1900, durante a sua infância até sua reunião posterior, nos anos 1960.
Fonte: Cineplayers

The Internet Movies Database - IMDB: Nota IMDB - 8.4
"O Cinema possui obras significativas abordando a máfia, sua intrincada e curiosa história, mas a sétima arte não é a mesma sem esta novela gângster; a versão de ninguém menos que Sérgio Leone. Ver a, a certo modo, o desenvolvimento deste conto nova iorquino do crime, nos dá a nítida impressão, não de que as outras obras cinematográficas sobre tal tema são dispensáveis, mas sim que Leone é extremamente essencial." - Blog Convergência Cinéfila.
Análise:
Talvez poucos saibam que a direção de O Poderoso Chefão foi oferecida para Sergio Leone, que recusou a proposta, decisão esta que o fez arrepender-se anos depois. Muitos consideram este o motivo que o levou a dirigir seu próprio filme de máfia. Coincidência ou não, Era Uma Vez na América é considerado por muitos seu melhor e mais ambicioso trabalho como diretor.

A produção do longa foi conturbada. Leone terminou as filmagens com mais de 10 horas de material produzido, que ele e seu montador, Nino Baragli, reduziram para 6. Isto levou-o a propôr a idéia de dividir o filme em 2 partes de 3 horas de duração para abarcar toda a história que pretendia contar, mas não foi aceita pelos produtores. Com isto, Leone fez o que pôde até chegar a um corte de 3h50min, sendo que o ideal para ele seria algo entre 4h10min e 4h25min. Para piorar ainda mais um novo corte foi feito pela Ladd Company, contra a vontade de Leone, para o seu lançamento nos Estados Unidos, que reduziu o filme para meras 2h24min, além de mudar completamente a ordem estabelecida pela montagem do diretor (o filme não segue uma cronologia convencional, vai e volta no tempo conforme as necessidades dramáticas e temáticas da história). Graças a isto o longa foi mal recebido justamente no país que sua história retrata, e não chegou a disputar nem um Oscar.

Em fevereiro deste ano foi lançada uma versão remasterizada em bluray com o corte original de 229 min, para a felicidade dos apreciadores da obra de Leone. Foi esta a versão que assisti.

A trama abarca a adolescência, maturidade e velhice de David “Noodles” Aaronson (Robert De Niro), um mafioso judeu na Nova York dos anos 20 e 30, contando o começo e o fim de suas amizades, sua ascensão ao poder, e as perdas que sofreu como consequência de sua vida criminosa.
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Mafia Kids
Por tratar-se de um filme longo, sua edição e montagem influenciam muito na percepção do espectador, e sabendo disto Leone foi sábio em imprimir um ritmo e fluência que contribuem muito para que o filme conduza o espectador por toda a trama sem torná-la cansativa e monótona. O diretor já nos introduz à estrutura básica da narrativa nos primeiros minutos, quando encontramos David pela primeira vez em um covil de ópio, tendo flashbacks enigmáticos de seu passado recente, que convida o espectador à tarefa de montar o quebra-cabeças proposto pela trama, instigando-o a fazer perguntas como: quem mandou os capangas atrás de David, e por quê? Qual é sua relação com os três criminosos mortos numa emboscada do FBI? O que significa o telefone que toca insistentemente? Quem roubou o conteúdo da maleta escondida no guarda-volumes da estação de trem?

Após a introdução propositalmente confusa e frenética, Leone torna a narrativa mais clara e coerente, quando passamos a acompanhar David, já idoso em 1968, revisitando locais marcantes de seu passado. É neste ponto que o diretor faz uso de outro recurso que impede a narrativa de tornar-se cansativa: as rimas visuais.
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As idas e vindas entre presente e passado são marcadas por motivos e temas visuais que ecoam o anterior, tornando as transições fluidas e elegantes. Assim, temos o carro que mergulha no rio no passado, seguido da reportagem sobre um automóvel destruído num atentado no presente; Noodles em 1968 olhando através da fenda escondida no banheiro do Fat Moe’s, que transporta-o para o dia em que espionou pela primeira vez Deborah enquanto ensaiava passos de dança; os faróis de um caminhão de lixo em 68 que se transformam nos de um automóvel dos anos 30 lotado de jovens comemorando o fim da Lei Seca, entre outras inúmeras transições elegantes e inspiradas, tornando o filme prazeroso de assistir.

Outro prazer que o filme proporciona é o de acompanhar a trajetória do protagonista e seus amigos ao longo de décadas. O elenco de adolescentes, encabeçado por Scott Schutzman Tiler e Rusty Jacobs, interpretando os jovens David e Max, respectivamente, foi muito bem escolhido. Há um ótimo entrosamento entre os garotos, todos muito à vontade em seus papéis, imprimindo autenticidade aos personagens. E Jennifer Connelly, estrelando o primeiro papel de sua carreira, consegue marcar presença em suas poucas cenas, sendo ao mesmo tempo doce, encantadora e audaz.
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Prazer, Al Pacino Jr.
Também é digna de nota a forma como Leone aborda o afloramento da sexualidade dos garotos, especialmente em cenas como aquela em que David vê Deborah, ainda uma menina, despindo-se sem pudores (cena que causou certa polêmica na época do lançamento, pois Jennifer Connelly tinha apenas 12 anos); e Peggy (Julie Coen) desde cedo sendo assediada sexualmente pelos garotos, e vendendo seu corpo a um policial, numa antecipação ao futuro reservado a ela.

O sexo ganha papel de destaque em toda a história, seja como forma de comemorar uma vitória (David transando com a prostituta no carro funerário após sair da prisão), aliviar a tensão durante uma operação (o “estupro” em meio ao roubo de diamantes), e até como meio de provar sua identidade (a “exposição de pênis” para a mulher que foi “abusada” por um deles a fim de que ela reconheça o culpado). Quem já assistiu O Poderoso Chefão e Os Bons Companheiros, entre outros filmes do gênero, sabe que a promiscuidade e brutalidade são expressões de poder inerentes à vida dos mafiosos, e Leone soube trabalhá-lhos de maneira integrada à trama, sem soar gratuito em nenhum momento.

É importante também salientar o quanto o roteiro é bem sucedido em fazer com que nos simpatizemos pelos personagens, mesmo cometendo altos moralmente reprováveis a todo momento. Seja levando-nos a comemorar o sucesso da idéia proposta por David, ainda adolescente, para salvar uma carga de bebidas em alto-mar; ou nos divertindo com a troca de bebês na maternidade.
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Esteticamente o filme não decepciona. Sua direção de arte excepcional tira proveito de construções reais remanescentes das décadas de 20 e 30, mesclando-as a cenários construídos pela equipe de produção com enorme riqueza de detalhes, conferindo uma impressionante verossimilhança à Nova York da trama. A preferência de Leone por enquadramentos que privilegiam o cenário em detrimento dos personagens, espaços abertos, e elementos cênicos bem distribuídos por toda a tela, unidos a tomadas panorâmicas, e ao figurino impecável, completam o quadro do período coberto pela história.

A maquiagem, de grande importância em um filme que mostra o envelhecimento de vários personagens, é muito convincente, com exceção da usada em Elizabeth MacGovern (Deborah), que continua com rosto de menina durante seu reencontro com David no camarim do teatro. Mais tarde, durante a festa na casa do Senador Bailey, nota-se um cuidado maior no processo de envelhecimento, embora ainda deixe um pouco a desejar.

Destacam-se, ainda, alguns momentos inspirados da direção de Leone, apoiados na bela fotografia de Tonino Delli Colli, como o ensaio da pequena e graciosa Deborah no depósito do restaurante, envolvida em uma névoa de farinha, que compõe uma atmosfera de fantasia e sonho, e ressalta o encantamento que ela provoca em David, vista por ele como um ser intocável. Vale mencionar também o momento em que ela se olha no espelho, emoldurada ao fundo por uma clarabóia iluminada pelo céu azul e limpo, servindo tanto ao propósito de indicar o aspecto angelical da menina (aos olhos de David), e suas aspirações elevadas que, anos depois, afastariam-na de seu amor juvenil.
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Há ainda metáforas visuais que merecem atenção, como a presença das maçãs verdes e vermelhas ao fundo, na cena em que David beija Deborah pela primeira vez. Aqui as frutas ilustram o período de amadurecimento do casal de adolescentes, como também insinua a presença do pecado, do desejo de cometer atos “proibidos” pelos preconceitos sociais. Outra possível interpretação é que as maçãs vermelhas funcionam como um presságio da emboscada de Bugsy (James Russo), que ocorre minutos depois, levando David a perder a chance de ficar mais tempo com a menina. E, claro, o acontecimento ecoa, à sua maneira, o mito do Paraíso Perdido, pois Deborah tranca David pra fora do restaurante depois da briga, impedindo-o de voltar àquele mundo cheio de romantismo oferecido a ele minutos antes.
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Mais uma metáfora visual, desta vez mais sutil, pode ser encontrada na cena em que David e Moe (Larry Rapp), já velhos, conversam frente a frente numa mesa de restaurante. Cada um é enquadrado, ao fundo, por uma luz de cor diferente: vermelha atrás de David, sugerindo a maldade e fatalidade que marcaram sua vida; e amarela em Moe, reforçando a covardia do personagem.
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Por fim não podemos ignorar o papel ocupado pela trilha sonora, muito bem escolhida e empregada no filme. Yesterday, mesmo que um tanto óbvia, é uma escolha feliz para comentar a elipse que marca a primeira aparição de David em 1968. O uso irônico de God Bless America em momentos trágicos também funciona, assim como a vibrante La gazza ladra, que casa perfeitamente com a divertida seqüência na maternidade. E Amapola, de Joseph LaCalle, combina com os vários momentos marcantes do relacionamento de David e Deborah (a descoberta da sexualidade do casal na adolescência, seu reencontro na juventude, e o jantar que antecede sua traumática separação).

Embora o conjunto da obra seja praticamente impecável, Era Uma Vez na América possui pequenas falhas, como o mal-aproveitamento de Frank Manoldi, interpretado por Joe Pesci, que entra e sai da trama sem dizer a que veio; e a introdução súbita de Eve (Darlanne Fluegel), que surge sem grandes explicações como interesse romântico de David, dando a entender que possui um papel maior na trama, mas que nunca se concretiza. Ambas são possíveis conseqüências do corte final do filme, que ficou menor do que o desejado por Leone, as quais podem ser corrigidas na versão estendida de 4h29min de duração, anunciada em março deste ano, com lançamento previsto para 2012. Até lá elas permanecem como pontos negativos da narrativa.

Apesar das pequenas falhas estruturais, Era Uma Vez na América é o trabalho mais maduro de Sergio Leone, que mesmo diante dos desafios e imposições que surgiram ao longo de sua produção, foi capaz de realizar um filme que consegue ser simultaneamente vigoroso, poético e, à sua maneira, filosófico. Encerrando a trama com uma nota de ambigüidade que deixa por conta do espectador estabelecer a natureza da história que acabou de assistir, Leone conclui aquela que pode ser considerado sua obra-prima, fazendo por merecer seu lugar entre os melhores filmes de máfia de todos os tempos, igualando-se, na minha opinião, com a trilogia O Poderoso Chefão, de Francis Ford Coppola e Os Bons Companheiros de Martin Scorsese. Trabalho final digno de um dos grandes diretores do cinema.
Fonte: Curtindo Cinema - Blog
A Trilogia da América - Sergio Leone:

2 comentários:

  1. Companheiro,

    já faz um tempinho que lançaram uma versão estendida com 251 minutos. O torrent existe, mas ninguém até agora disponibilizou legendas em português ou espanhol.

    Sendo um filme de tamanha importância, será que nenhum abnegado se disporia a tornar o filme acessível para quem, como eu, só consegue acompanhar legendas nesses dois idiomas?

    Talvez nem seja tão trabalhoso para os que dominam a técnica. Afinal, partindo da legenda inglesa, poderia aproveitar a brasileira já feita em 229 minutos e só teria de providenciar a tradução relativa aos 22 minutos acrescentados.

    Pelas características dos filmes do Leone, acredito que o director's cut pode ser tão enriquecedor como, digamos, o do PAT GARRETT & BILLY THE KID, do Sam Peckinpah --os cerca de 15 minutos a mais implicaram um enorme ganho em termos da poesia melancólica que o filme, um western outonal, queria transmitir.

    Abs. e cumprimentos pelo ótimo trabalho!

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