terça-feira, 17 de dezembro de 2013

UNDERGROUND - MENTIRAS DE GUERRA - 1995

Underground, Legendado, 1995, Emir Kusturica

Classificação: Excelente
Formato: AVI
Áudio: Sérvio/Francês/Alemão/Russo/Inglês (Diálogos)
Legendas: Português
Duração: 170 min
Tamanho: 1.36 Gb
Servidor: MEGA (4 Partes)
Links:

Parte 1
Parte 2
Parte 3
Parte 4

 Sinopse: Num subterrâneo em Belgrado, uma família sobrevive à guerra produzindo armas para os rebeldes, mas um dia a guerra acaba e o atravessador deles prefere não avisar.
Fonte: Cineplayers
The Internet Movies Database: IMDB - Nota Imdb 8.1

Análise:
Por Guido Bilharinho
Emir Kusturica (Bósnia, 1955-), possui obra cinema­tográfica que teve larga repercussão, embora de poucos títu­los. Conquanto isso, obteve o Leão de Ouro em Veneza/81 para primeira obra, Você Se Lembra de Dolly Bell? (Sjecas Li Se, Dolly Bell?, Iugoslávia, 1981), a Palma de Ouro em Cannes/85 para Quando Papai Saiu em Viagem de Negócios (Otac na Sluzbenom Putu, Iugoslávia, 1985) e, raro aconte­cimento, outra Palma de Ouro, em 1995, com Underground, Mentiras de Guerra.
Incursionou pelo cinema estadunidense, onde realizou o frustrado Arizona Dream - Um Sonho [Norte-]Americano (Arizona Dream, 1993), Prêmio Especial em Berlim/93. Mas, entre uma e outra palma de ouro, fez Vida Cigana (Dom Za Vesanje,1988), prêmio de direção, em Cannes, que alguns críticos consideram sua obra-prima.
A exuberância de suas realizações provocou controvér­sias e, principalmente, desnorteou o público.
É o que ocorreu com Underground, Mentiras de Guerra (Underground, França/Alemanha/Hungria, 1995), em que, conforme notado e sublinhado pela crítica, cruzam-se ale­goria, crítica, barroco, rococó, surrealismo e realismo. Essa profusão criadora confundiu, a princípio. O exagero e o ab­surdo são, às vezes, tão grandes, que raiam o inacreditável. Seu poder criador, imaginação ilimitada, senso de observação, visão crítica da realidade humana, social e política perpas­sam o filme, constituindo seu substrato mais evidente, muito embora possam parecer exagerados para quem desconheça a história da ex-Iugoslávia na década de 1990 e o espírito de uma ou outra das etnias que a integram, já que o país era composto de povos diversos e irreconciliáveis, como o provou a carnificina que o abateu.
Mas, quem não sabe que “há muito de terrível. Mas nada é mais terrível do que o homem”?, como, há mais de dois milênios, repete o coro da Antígona, de Sófocles, conforme a versão de Brecht e sua tradução brasileira, visto que, em outras, o termo usado não é terrível, embora seja (ou deva ser) o mais apropriado.
A mortandade na ex-Iugoslávia é inimaginável. E ela está também nesse filme. Mas, não só isso. Tudo ou quase tudo do país nesses últimos cinqüenta anos está lá, como em boa parte também está em Quando Papai Saiu em Viagem de Negócios. O caráter dos habitantes, o espírito iugoslavo e suas características sensoriais, a gesticulação, o exagero, a animação. Aliás, também particularidades do próprio filme, como já assinalado.
O painel é grandioso. Mais que underground tem-se background do povo e do país num grave momento de sua história, que abrange de 1941 aos princípios da década de1990.
A crítica não regateou aplausos ao filme e chamou a atenção para muitas das cenas. Com razão. O ato do protago­nista limpar os sapatos com gato preto vivo e o jogar, depois, com indiferença, para o lado, surpreende. O bombardeio inicial do zoológico é, conservando a rima, antológico. Só o gênio artístico pode concebê-lo e realizá-lo. É a melhor parte do filme. Acima de tudo - e apesar de tudo, já que sob bombardeio - poético.
Até a destruição é poetizada. Contudo, o filme, em sua longa duração, não mantém essa peculiaridade e esse nível, que essas não são suas intenções. Mas, o décor da Belgrado bombardeada pelos nazistas impressiona. Pode-se dizer que deverá ser - mais do que os monumentos históricos, aliás, milenares, as paisagens da Floresta Negra e dos Alpes, frutos permanentes da natureza - o símbolo da Europa do Século XX, continente de guerras, devastação e extermínio, como a África, por exemplo. Algo simplesmente irracional (e/ou terrível, como detecta a sabedoria grega). O terrível é irra­cional. Há momentos e fatos que levam a crer que o atributo humano é privilégio só dos animais. E vice-versa.
Além disso, destaca-se no filme o contraste entre os arruinados ambientes pós-bombardeios com a assepsia e o artificialismo do décor dos funerais de Tito, chefe do governo do país de 1945 até sua morte, ocorrida em 1980.
O desenvolvimento posterior do filme compõe ava­lanche de fatos e atitudes, em que as facetas inicialmente apontadas, de exuberância, exagero, absurdo, barroquismo e surrealismo alternam-se, embora prevalentemente, com elementos de realismo e até naturalismo.
Com tudo isso e o mais que ainda ostente, Underground corria o risco de ser, também, caótico. E só não o é porque a estrutura narrativa é convencional, tanto formal como tema­ticamente, sucedendo-se os fatos em ordem cronológica e a história percorrendo o tradicional caminho de início, meio e fim.
A singularidade, no caso, limita-se à visão e recriação da realidade e não à maneira como é filmada. Nesse ponto, como em outros, Kusturica é felliniano, como também no­tado pela crítica. E como Fellini, restringe-se à percepção e reconstrução dos fatos e não à forma de expressá-los.
Talvez a confluência e simultaneidade de ambos resul­tassem em incompreensão e caos criativo, mas, em interes­sante experiência. Porém, o que Fellini e Kusturica (e tantos outros) cineastas não querem é justamente isso. O caos, o barroco, a exorbitância, a criatividade restringem-se ao tema, conquanto a forma seja, por sua vez, brilhante, mas, sem experimentos, surpresas e aventuras. No caso, a aventura (e também desventura) é a passagem do ser humano pela face da terra.
Fonte: Portal Cronocópios














2 comentários:

Política de moderação do comentários:
A legislação brasileira prevê a possibilidade de se responsabilizar o blogueiro pelo conteúdo do blog, inclusive quanto a comentários. Dessa forma, o Convergência Cinéfila reserva a si o direito de não publicar comentários que firam a lei, a ética, ou quaisquer outros princípios da boa convivência. Para a boa convivência, o Convergência Cinéfila formulou algumas regras:
Comentários sobre assuntos que não dizem respeito ao filme postado poderão ser excluídos;
Comentários com links serão automaticamente excluídos;
Os pedidos de filmes devem ser feitos no chatbox.

Att.,
Convergência Cinéfila