domingo, 25 de maio de 2014

SOLARIS - 1972

Solyaris, 1972
Legendado, Andrei Tarkovsky
Classificação: Bom

Formato: AVI
Áudio: russo/alemão
Legendas: português
Duração: 167 min
Tamanho: 1,36 GB
Servidor: 1Fichier (2 partes)

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SINOPSE
O famoso psiquiatra Kris Kelvin (Donatas Banionis) vai à estação espacial Solaris com uma importante missão científica: decidir se deve o trabalho realizado de investigação sobre um misterioso planeta deve continuar. Ao chegar à estação Kelvin já é surpreendido pelo suicídio de um dos integrantes da tripulação, sendo que outros dois, Snaut (Jüri Järvet) e Sartorius (Anatoli Solonitsyn), estão à beira da loucura. Com o tempo o próprio Kelvin passa a se sentir estranho, tendo transes oníricos onde vê sua ex-esposa Hari (Natalya Bondarchuk), falecida há anos.

Fonte: Adorocinema
The Internet Movie Database: IMDB - NOTA IMDB: 8.1


ANÁLISE

O PLANETA DA CONSCIÊNCIA
Por Ricardo Rangel

"Mas ao lado da infinita variedade de idéias ou objetos do conhecimento há alguma coisa que os conhece ou percebe, e realiza diversas operações como querer, imaginar, recordar, a respeito deles. Este percipiente, ser ativo, é o que chamo mente, espírito, alma ou eu. Por estas palavras não designo alguma de minhas idéias, mas alguma coisa distinta delas e onde elas existem, ou o que é o mesmo, por que são percebidas; porque a existência de uma idéia consiste em ser percebida." George Berkeley - "Tratado sobre os Princípios do Conhecimento Humano", parágrafo 2

A passagem acima, do filósofo irlandês que nasceu no final do século XVII e faleceu na metade do século XVIII, e foi um dos fundadores do empirismo clássico, juntamente com David Hume e John Locke, reflete, em sua essência, uma das tantas reflexões filosóficas que o filme "Solaris", do cineasta russo Andrei Tarkovsky, suscita. Baseado na obra homônima de Stanislav Lem, "Solaris" é considerado um clássico da ficção científica, sendo comparado inclusive à obra extraordinária e imortal de Stanley Kubrick "2001 - Uma Odisséia no Espaço", recebendo a alcunha eventual de "o 2001 soviético", uma vez que foi realizado na época da antiga república "comunista" da Rússia, pertencente à União Soviética, no leste europeu. Essa comparação não é forçada e soa bastante pertinente e plausível, embora ambos os filmes abordem questões distintas, mas que em alguns pontos parecem convergir entre si, levando à uma reflexão semelhante a respeito dos seus principais pontos de contato.
"Solaris" não é um filme de análise fácil, muito pelo contrário: a complexidade da sua história e a profundidade das suas reflexões necessitam de algum referencial teórico como pano de fundo, que sirva como instrumento de análise, de questionamento, uma vez que se trata de uma obra-filme, essencialmente, de natureza filosófica e com conteúdo poético. Por esta razão, trago à baila, a título ilustrativo e com a função de lançar alguma luz para a discussão, a filosofia empirista de Berkeley como ponto de partida para uma tentativa hercúlea de uma possível análise. Gostaria de lembrar, contudo, que esta é apenas uma das inúmeras, incomensuráveis, possibilidades de abordar o filme, uma vez que o seu conteúdo é riquíssimo e vasto, então quase infinitos caminhos podem figurar nesse amplo cenário de discussão. Se este é o melhor caminho, sinceramente eu não saberia, nem teria como julgar, se é que há algum que assim possa ser classificado como tal, mas foi aquele que me pareceu mais razoável para começar a atacar os problemas, dos mais difíceis e intrincados que podem se configurar em uma crítica de cinema de um filme tão complexo e difícil como este. Antes de prosseguir, portanto, quero deixar claro: o que me proponho a pelo menos esboçar aqui nada tem de pretensioso, como por exemplo revelar soluções mágicas e dar por resolvidas as questões; muito pelo contrário, é apenas um esboço humilde e superficial de dar início a uma análise, uma discussão que, possivelmente, nunca terá fim - o que é ótimo, pois assim o debate nunca se esvairá em si mesmo, possibilitando sempre uma reflexão crítica e instigante, como deve ser. Bem, adentremos ao árduo trabalho, então.

A tese principal da filosofia empirista de Berkeley, em particular a sua Metafísica e a sua Teoria do Conhecimento, pode se resumir na seguinte proposição: Ser é ser percebido ("Ser et es percepi"). A existência das idéias, de uma maneira muito geral e resumida, é dada pela presença de uma mente percipiente, de um ser (embora essa não seja uma condição necessária, mas sim suficiente) que perceba (o que é necessário, Berkeley chama, no seu jargão, de mente, espírito, alma ou eu; na Filosofia da Mente contemporânea, pode-se chamar esta entidade de consciência, mas este é um ponto que trataremos mais adiante). A existência das coisas, de uma maneira geral, e das idéias, tanto as sensíveis como as simples e abstratas, inclusive, deve, necessariamente, no seu sistema filosófico, ser percebida por uma mente universal, uma vez que se corre o risco de se cair em uma espécie de solipsismo, ao dizer que a existência de tais idéias e das coisas seja apenas uma existência para o meu ser, a minha mente: essa mente universal é, segundo Berkeley, a de uma substância pensante, e essa substância pensante deve ser Deus, uma vez que são as idéias na Sua mente que existem, e assim a existência das coisas materiais, assim como das idéias, fica mostrada e subordinada à existência do criador. Mas é bom destacar que a filosofia berkeleyana não se aproxima de uma espécie de panteísmo, como pode parecer nesse breve e rasíssimo resumo. A mente particular do homem, na sua finitude, percebe as coisas sensíveis como idéias - sendo as coisas, idéias para Berkeley. O artifício de introduzir uma mente infinita, como substância pensante, tem uma única e exclusiva razão na metafísica do filósofo irlandês: isso garante, ontologicamente, a existência de todas as coisas, como idéias, é claro, uma vez que essa mente infinita, Deus, percebe tudo em si mesma.

No filme de Tarkovski, Solaris é um planeta que possui um enigmático oceano que supostamente "lê" e "materializa" os pensamentos de seres humanos, no caso cientistas russos, que estão localizados em uma estação que orbita tal corpo celeste, cujo objetivo principal é estudar os efeitos deste sinistro astro. A espera incontável é por um contato, supondo-se que alguma inteligência habite Solaris, e o incompreensível e inefável oceano parece ser o maior candidato a tal embaixada extraterrena, semelhantemente à figura do monolito em "2001...", podendo ser visto e/ou entendido também sob essa ótica. Mas o oceano do planeta parece transcender, ou, em outra perspectiva, ir além da possibilidade teórica de ser este um ente pensante, ou uma "substância pensante" (tanto no sentido de Berkeley, tanto em relação ao ser percepiente finito, quanto à substância divina, infinita dada a sua natureza, quanto em outro sentido filosófico deste termo): o oceano "pensante" solarístico é causa desta suposta materialização dos pensamentos de seres finitos nos seus atributos, e não efeito do seu próprio "autopensamento", digamos assim. Isto talvez reflita o caráter eminente e substancialmente humano de "Solaris ", que, a meu ver, é muito mais um filme que fale sobre amor, poesia e sentimentos do que uma ficção científica propriamente falando, pois esse último aspecto parece estar mais relacionado ao fato de tudo se passar na órbita de um outro planeta, com cientistas a bordo discutindo sobre radiação e neutrinos (bem, o misterioso oceano passou a "agir" assim após sofrer um bombardeamento de raios X).

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Screenshots













































































4 comentários:

  1. Solaris é um dos filmes mais intrigantes do diretor Tarkovsky, mas não é para qualquer público. Não é o típico filme de ficção-científica como podemos esperar. Sua viagem é muito mais existencial e filosófico. Sua narrativa é lenta, mas fascinante, mesmo assim é para poucos. Ele foi re(descoberto) graças ao remake americano de Steven Soderbergh.Tarkovsky é um daqueles diretores que ainda não teve o reconhecimento que merecia. Obrigado pela postagem!

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  2. Gostaria muito de assistir esse filme, pena que a segunda parte do arquivo está indisponível no servidor, é possível reupar?

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  3. Um filme INCRÍVEL, veja e reveja quantas vezes puder, só irá melhorar sua experiência com a obra.

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  4. Muito Obrigado. Acabei de ler o livro e quero ver o filme

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