Ao contrário de muitos outros fãs de Martin Scorsese, não creio que a
carreira do cineasta tenha atravessado uma fase de decadência nos
últimos dez ou onze anos, desde que lançou o excelente
Cassino: sim, ele tropeçou em
Kundun e
Gangues de Nova York e realizou menos longas do que esperávamos; mas, ainda assim, concebeu os complexos e fascinantes
Vivendo no Limite e
O Aviador,
provando que, como qualquer outro diretor, tem também seus altos e
baixos. Apesar disso, quando fiquei sabendo que ele refilmaria o
excelente
Conflitos Internos, confesso que tive minhas dúvidas: embora sua versão de
Cabo do Medo
tenha se revelado ainda melhor do que o ótimo original, desta vez
Scorsese iria refazer uma produção recente e, portanto, a empreitada
parecia desnecessária - uma idéia de executivo norte-americano com
preguiça de ler legenda. Felizmente, estas dúvidas se revelaram
desnecessárias: apesar de levemente inferior ao longa chinês (por razões
que explicarei abaixo),
Os Infiltrados é um filme vigoroso que demonstra a habilidade de seu diretor em conduzir tramas violentas e complexas.
Adaptado por William Monaham (de
Cruzada),
o roteiro acompanha os jovens policiais William Costigan (DiCaprio) e
Colin Sullivan (Damon) em seus primeiros anos de profissão: enquanto o
primeiro é designado para se infiltrar na organização criminosa chefiada
pelo psicótico Frank Costello (Nicholson), o segundo logo se torna um
dos detetives mais respeitados do departamento encarregado de investigar
e prender o bandido. O que ninguém sabe é que Sullivan também é um
“infiltrado”: protegido por Costello desde a infância, o rapaz tornou-se
policial justamente para servir como fonte de informações para o
criminoso – e sua escalada profissional foi possibilitada, entre outras
coisas, por armações orquestradas por Costello para beneficiá-lo,
envolvendo até mesmo a prisão de pessoas inocentes. Tentando descobrir
as identidades uns dos outros, Costigan e Sullivan dão início a um tenso
jogo de gato-e-rato cujo resultado pode ser a morte do daquele que for
exposto pelo inimigo.
Um dos grandes atrativos de
Os Infiltrados, aliás, reside
justamente nas estratégias utilizadas por ambos ao longo da narrativa:
inteligentes e bem treinados, eles sempre tentam antecipar os passos do
inimigo, o que acaba resultado em constantes frustrações. Quando
Sullivan liga para o celular de Costigan, por exemplo, este atende, mas
permanece calado por não saber quem está do outro lado da linha – e os
momentos de interminável silêncio que se seguem ilustram perfeitamente a
maneira frenética com que suas mentes trabalham para tentar dar o passo
seguinte. Aliás, os celulares se tornam armas importantíssimas na
guerra travada pelos dois lados da Lei e, constantemente, surgem como
recurso desesperado para avisar os aliados (por voz ou mensagens de
texto) de que algo importante está acontecendo.
Mas não são apenas as ações dos personagens que enriquecem a
narrativa; o próprio sacrifício que fazem por seus objetivos é
fascinante – e não é à toa que o título original faz referência àqueles
que “partiram”: a partir do instante em que aceitam suas missões,
Costigan e Sullivan morrem para suas existências anteriores, abrindo mão
de tudo que conheciam por suas novas realidades. Como se não bastasse,
as mentiras que os cercam obrigam-nos a manter desgastantes vidas
duplas, impedindo até mesmo que possam estabelecer novas relações (mesmo
amorosas), já que jamais poderão se deixar conhecer realmente. Este
tema, aliás, é ilustrado com talento por Scorsese em um plano no qual
enxergamos rapidamente os dois rapazes através de inúmeros reflexos
(durante a seqüência em que um tenta seguir o outro), simbolizando as
várias facetas que são levados a assumir no cotidiano.
Emprestando a Colin Sullivan um rosto de garoto bonzinho, Matt
Damon cria um personagem quase tão cruel quanto seu Tom Ripley, que
também sabia utilizar sua aparência inofensiva a seu favor. Ambicioso,
mas com um claro complexo de inferioridade (uma combinação sempre
perigosíssima), Sullivan sonha em se tornar um indivíduo respeitado e
poderoso, como torna-se óbvio por sua fascinação pelo domo da Assembléia
Legislativa e por seu orgulho por estar namorando uma psiquiatra (“
Ela é médica”,
ele explica a alguém, com expressão de vitória). Inescrupuloso e capaz
de qualquer coisa para alcançar seus propósitos de glória e fama, o
rapaz mostra-se inseguro apenas quando está lidando com seu protetor,
Frank Costello: nestes momentos, seu olhar se torna vacilante, sua voz
denota medo e seu ar presunçoso desaparece, evidenciando o cuidado na
composição feita por Damon.
Leonardo DiCaprio, por sua vez, encarna um personagem
infinitamente mais trágico, já que, enquanto Sullivan ganha conforto e
segurança em seu novo papel, William Costigan precisa justamente abrir
mão de tudo isso para se infiltrar na quadrilha de Costello – e é
irônico que ele tenha lutado tanto para se afastar das raízes de
marginalidade de sua família somente para ter que voltar a elas ao se
tornar policial (sua dor ao ouvir o sargento Dignam descrever as
atividades ilícitas de seus parentes é clara). Ciente de que pode ser
morto a qualquer momento e por qualquer descuido, Costigan ainda é
obrigado a encarar o peso de conviver com pessoas que encaram o
assassinato com chocante naturalidade – e, assim, é inevitável que ele
eventualmente se torne viciado em calmantes. Solitário e amargo, este é
um dos personagens mais intensos e tristes da carreira do talentoso
ator.
Aliás, seria possível escrever mais mil palavras apenas sobre a qualidade das interpretações vistas em
Os Infiltrados,
começando pelo explosivo sargento vivido por Mark Wahlberg até chegar
ao excessivamente viril Ellerby (encarnado por Alec Baldwin), passando, é
claro, por Vera Farmiga, que assume o único papel feminino de
importância do filme, criando uma figura vulnerável e real. Da mesma
forma, Martin Sheen confere grande calor humano a Queenan, cuja
dignidade é determinante ao levar Costigan a aceitar sua desgastante
missão. Fechando o elenco principal, vem, é claro, Jack Nicholson, que
transforma Frank Costello em mais um tipo marcante de sua invejável
galeria de composições: chegando à insanidade em sua facilidade para o
assassinato (“
Um dos dois tinha que morrer. Comigo, tende a ser o outro cara.”), Costello combina a
persona
divertidamente excêntrica de Nicholson à violência habitual do universo
de Scorsese, resultando em cenas que beiram o absurdo, como aquela em
que, sujo de sangue até os cotovelos, o criminoso pede casualmente que
alguém busque um balde e um esfregão. Assim, é realmente uma pena (e um
dos principais equívocos do filme) que sua saída de cena seja tão
casual, não fazendo jus à força do personagem.
E já que citei a violência de Scorsese, é importante ressaltar que
Os Infiltrados oferece um retorno às escolhas gráficas feitas pelo cineasta em obras como
Os Bons Companheiros e
Cassino:
quando alguém leva um tiro, ele faz absoluta questão de nos mostrar as
conseqüências sangrentas do ato, jamais cortando para outro plano “no
último momento”. Além disso, até mesmo as escolhas mais óbvias do
diretor acabam funcionando, como sua decisão de manter Jack Nicholson
nas sombras, na seqüência pré-título, e o plano final, que traz um rato
na sacada de um prédio enquanto vemos a Assembléia Legislativa ao fundo.
No primeiro exemplo, além de servir para disfarçar a idade do ator em
um momento no qual deveria aparecer muito mais jovem, o jogo de sombras
serve também como símbolo do caráter do sujeito; já no segundo, a
metáfora visual é clara (até óbvia, como já dito), mas mais do que
adequada para amarrar a narrativa.
Por outro lado, os fãs de Scorsese certamente ficarão
desapontados com a escassez de momentos realmente típicos de sua
linguagem cinematográfica habitual: embora ofereça uma direção segura,
Os Infiltrados
só oferece os registros autorais do cineasta na longa seqüência que
antecede o surgimento do título, quando somos presenteados com seus
travellings
marcantes, planos-seqüência envolventes e a utilização precisa da
trilha sonora e de câmera lenta. Já no restante da projeção, apenas
ocasionalmente somos capazes de identificar um movimento de câmera ou
uma opção de montagem que se revele característica do diretor, o que é
uma pena (por mais que, repito, sua condução da narrativa seja
brilhante). Além disso, o filme falha por não conseguir ilustrar, como
no longa original, a passagem dos vários anos (naquele caso, nada menos
do uma década), o que seria importante para ilustrar a dimensão do
sacrifício feito pelo policial infiltrado na organização criminosa – o
que confere uma escala épica à produção chinesa que falta (por pouco) à
refilmagem.
Corajoso ao manter algumas das escolhas mais dramáticas da versão comandada por Andrew Lau e Siu Fai Mak,
Os Infiltrados
toma um caminho realmente diferente apenas em seus segundos finais, que
(sem revelar nada de importante) fazem uma opção infinitamente menos
cínica do que a de
Conflitos Internos – em contrapartida, é mais
carregada de ironia, o que acaba reequilibrando a equação e tornando o
filme mais um belo exemplar na carreira do brilhante Martin Scorsese.