Toda memória de infância tem um grande
impacto sobre nós, independente do tipo de sentimento que ela nos faz
reviver. Na maior parte das vezes, porém, quando escolhemos nos lembrar
do cotidiano infantil, das brincadeiras, das conversas dos adultos, das
descobertas, do mundo à nossa volta, tudo parece vago, solto, quase
perdido na nossa linha do tempo, como se estivéssemos vendo um filme
sobre a vida de outra pessoa. Este é o formato que Federico Fellini
aplica ao seu Amarcord (1973), um filme de recordações e
experiências ocorridas entre a infância e a juventude do diretor, uma
espécie de contraponto ao seu filme anterior, Roma (1972), cuja visão adulta e crítica compunha a maior parte da obra.
Sem uma história fixa a ser contada, mas ao mesmo tempo contando uma série de histórias, Amarcord
tem o formato de uma memória de criança. Falta organização em alguns
pontos, certas sequências são vistas com grande requinte de detalhes,
enquanto outras lembram um sonho surrealista. Os pais e familiares são
profundamente caricatos; os professores transitam entre o cômico, o
bizarro e o amedrontador; a política e outros eventos sociais aparecem
de maneira quase incompreensível, vistos apenas como um grande evento
público, com banda, uniformes, desfiles e discursos.
Diferente da linha narrativa solta adotada em Satyricon e seguida em Roma,
não há carência de ícones recorrentes, assim como o tema geral não se
perde em pequenas sequências isoladas: é perfeitamente entendível que
todas as recordações estão centradas em membros da família, na
descoberta da sexualidade (com destaque para algumas mulheres-fetiche), e
o cotidiano da família Biondi, tudo encerrado em um ano, ou pelo menos é
o que entendemos da sucessão de eventos que começam e terminam com os
flocos dispersos no ar anunciando o fim do inverno a chegada da
primavera. Também é possível entender essa organização temporal como uma
metáfora ou um ciclo, contendo alguns pilares da formação de uma
criança ou adolescente: a escola, os amores, a família, as brincadeiras,
a religião (ou a ausência dela) e a morte.