sábado, 31 de maio de 2014

ROSETTA - 1999

Rosetta, 1999
Legendado, Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne

Formato: AVI
Áudio: francês
Legendas: Pt-Br
Duração: 95 min
Tamanho: 1,12 GB
Servidor: 1Fichier (Parte única)

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Parte única

SINOPSE
A jovem e impulsiva Rosetta (Emile Dequenne) vive num trailer, com sua mãe (Anne Yernaux), alcóolatra e agressiva. Sua vontade de mudar de vida tanta que todos os dias ela luta muito por um emprego. Seu maior problema nem sempre achá-lo, e sim manter-se nele. Ela sai procura de trabalho como alguém que está indo para a guerra e, nesta sua luta cotidiana para sair da pobreza e levar uma vida "normal", vale tudo.

Fonte: Adorocinema
The Internet Movie Database: IMDB - NOTA IMDB: 7.5


ANÁLISE

Por Felipe Bragança

O que Rosetta tem de mais instigante é a forma como Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne conseguiram entrelaçar o que seria mais um drama político-social com o que poderia ter sido só mais um drama sobre a solidão e a melancolia contemporânea. Mesclando crítica severa a uma sensibilidade extremada para com sua personagem, os diretores conseguiram criar uma dimensão de perplexidade e angústia que, se não propõe respostas prontas, consegue fazer emergir com toda a força a necessidade da busca por mudanças... Não é preciso um discurso panfletário, não é preciso qualquer diálogo que tente interpretar a realidade. Com a crueza de sua objetividade-subjetivada, J.-P. e L. Dardenne fazem um filme-registro que incomoda e remexe com o mais frio dos espectadores.

Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne

A câmera persegue Rosetta, não lhe deixa sozinha um só instante – todo o filme é Rosetta, tudo o que importa ali é Rosetta, por que é de Rosetta que estamos falando... Sobre as pequenas tristezas e alegrias de sua vida, de sua qualidades e defeitos, de suas manias e costumes... Todo filmado com a câmera na mão, Rosetta não tem sequer um plano ponto-de-vista ou montagens campo-contracampo... É como se o olhar tivesse ali um imediatismo, como se fosse impossível parar o olhar imerso naquele turbilhão no qual a personagem (como no lago de lama movediça) quase se afoga...

Mas não é só na forma que está o valor do filme – também no roteiro essa dimensão se estabelece: construído em diálogos e silêncios exatos, em um ritmo asfixiante e premiado com um belíssimo e surpreendente final... A interrupção do ato do suicídio, a interrupção do filme no meio de um suspiro de Rosetta, serve para projetar a narrativa para além do filme, para romper o espaço fílmico e lançar a questão para além da sala de projeção... O filme não se fecha por que não se trata de encontrar uma resposta ou de se decretar a tragédia inevitável... Mas de fazer da angústia daquelas imagens uma ferramenta político-social de questionamento e interesse do espectador por aquela realidade social microcósmica... Não se trata de pena, Rosetta não é uma mártir; se trata, sim, de encarar a dura realidade vivida por indivíduos muitas vezes esquecidos por quem vive além da redoma de vidro da mídia institucional, além do aquário farsesco que é o mundo cult-pop de um festival de Cinema...

Rosetta é, sem dúvida, um filme incômodo, e por isso mesmo se presta ao que se pretende. Um dos grandes filmes deste Festival e que merece ser analisado com mais calma em um outro momento.

Fonte: Análise retirada do site Contracampo


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sexta-feira, 30 de maio de 2014

CONDENAÇÃO - 1988

Kárhozat, 1988
Legendado, Béla Tarr

Formato: .mkv
Áudio: húngaro
Legendas: Pt-Br
Duração: 120 min
Tamanho: 1,17 GB
Servidor: Mega (Parte única)

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Parte única

SINOPSE
Uma senhora com jeito de profeta avisa Karrer que sua amada é como um pântano sem fundo: o atrairá e o aprisionará, sem escapatória. O triste é saber que ele já fora arrastado para a sua perdição e, dentro do cotidiano de sua vida vazia, a armadilha com corpo de mulher representa o fiapo de esperança que logo se tornará uma obsessão. Ela não só tem um marido e uma filha que o amedrontam, como tem um poder infinito diante dele, não importando o número de investidas e de planos arquitetados para que eles fiquem juntos.

Fonte: losolvidados
The Internet Movie Database: IMDB - NOTA IMDB: 7.8


ANÁLISE

Bela Tárr, mais que a maioria dos diretores, entende o vazio humano e sua solidão; seu tédio. Todas as cenas deste Danação (1988) estão repletas de um vazio desolador, que iria se agravar cada vez mais ao passar dos anos, na feitura de cada nova obra, culminando por fim no seu filme mais pessimista O Cavalo de Turim (2011). Cada plano revela a ausência de salvação, como o fizera com o plano simbólico das aranhas tecendo sua teia invisível sobre todos em Sátátangó (1994), onde uma mão transparente, inexorável, torna qualquer chance de redenção remota e impossível, o mesmo sentimos neste primeiro filme, porém, não em forma de alegoria, mas crua e tangente. Por intermédio da fotografia em preto e branco de Agnéz Hranitzsky – longa colaboradora do diretor – se constrói um cenário, uma Hungria rural – sempre presente nas obras de Tárr -, sempre escura, entre sombras, desolada. O retrato do desespero do personagem central Karrer (Miklós Székely B.), em meio a esta escuridão que permeia todo o filme, toma propriedade através de uma direção de atores formidável.
Béla Tarr
Karrer, como todo personagem de Bela Tárr quer fugir, encontra-se em desespero, e parece encontrar a solução através da migração; observe-se Sátántangó onde querem o dinheiro para ir embora, ou ainda As Harmonias de Werckmeister onde a salvação vem de fora, pelo Príncipe e a Baleia. Mas tal como nos revela a teia da aranha, não podem fugir; embora não vejam estão paralisados. Este é o drama central de quase todas as pessoas no mundo do diretor: inamovibilidade.
A progressão das cenas ocorre de forma esplêndida. Os cortes e a montagem dão um ritmo que consegue transpor para as telas todo o ócio e solidão daquelas pessoas, em especial Karrer. Tanto quanto pela atuação, a mise-en-scenè constrói os sentimentos dos personagens, seu drama. Claro que é pela ótica de Bela Tárr que tais elementos ganham proporções colossais. Em certa altura numa das primeiras cenas dos filmes temos um travelling muito vagaroso mostrando nada além de copos num bar, tais copos assumem uma dimensão enorme: revelam o que será dito depois, toda a vida deste homem tem se dado dentro de bares, em cinco mais especificamente irá dizer o garçom. Este é apenas um exemplo de como Bela Tárr possuí uma forma grandiosa de focar as coisas, de dar tamanho ao que em outro cinema pode não parecer ter relevância.
Ao fim, quando a obra se encerra, notamos que algo de grande se acaba. É de um rigor tão intenso, como já o era em seu primeiro longa Almanaque de Outono (1984), que chega a assustar. Quando ocorre então quatro anos depois do primeiro filme a transição para o preto e branco neste Danação, o rigor parece ainda maior, e nos filmes que viriam se tornaria ainda maior, culminando em As Harmonias de Werckmeister. Muitos anos costumam se passar entre as obras do diretor, cada plano parece minuciosamente pensado, e depois, executado, o que explica a demora para cada nova obra – embora atualmente Bela Tárr tenha optado pela aposentadoria voluntária por dizer não ter mais o que dizer no cinema -, se justifica o tempo de produção, pois quando prontas atingem um nível que não muitas obras podem ser nominadas: primas.
Fonte: Análise retirada do site Avantcinema


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quinta-feira, 29 de maio de 2014

A SEGURANÇA INTERNA - 2000

Die innere Sicherheit, 2000
Legendado, Christian Petzold

Formato: AVI
Áudio: alemão/português
Legendas: português
Duração: 106 min
Tamanho: 700 MB
Servidor: Mega (Parte única)

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Parte única

SINOPSE
Jeanne (Julia Hummer) vive na clandestinidade com seus pais, um casal de ex-militantes do movimento terrorista dos anos 70. Após terem seus documentos e o dinheiro roubados, eles obrigados a buscar novos caminhos com uma postura cuidadosa. Em meio à confusão da nova rotina, Jeanne se apaixona por Heinrich (Bilge Bingul), que acolhe sua família em casa.

Fonte: Adorocinema
The Internet Movie Database: IMDB - NOTA IMDB: 7.1



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terça-feira, 27 de maio de 2014

O EVANGELHO SEGUNDO SÃO MATEUS - 1964

Il vangelo secondo Matteo, 1964
Legendado, Pier Paolo Pasolini 

Formato: AVI
Áudio: italiano
Legendas: português
Duração: 137 min
Tamanho: 1,38 GB
Servidor: 1Fichier (2 partes)

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Parte 1
Parte 2

SINOPSE
A história de Jesus Cristo, do nascimento à ressurreição, a partir do texto de São Mateus. As parábolas, os primeiros discípulos, a revolta, a determinação, os milagres, a intolerância, a solidão e a impaciência. Assim Jesus conseguiu uma legião de seguidores e também muitos inimigos.

Fonte: Adorocinema
The Internet Movie Database: IMDB - NOTA IMDB: 7.9


ANÁLISE

O primeiro aspecto geralmente destacado quando se fala de O Evangelho Segundo São Mateus é o fato da obra ter sido incluída na famosa lista do Vaticano com os 45 filmes de temas religiosos aprovados pela Igreja Católica, lista que, conforme consta nos extras do dvd desse filme de Pasolini, deixou de fora, por exemplo, o épico grandiloqüente Os Dez Mandamentos, de Cecil B. DeMille. Dada a carga prioritariamente simbólica, nada contestadora em relação ao evangelho e muito pouco violenta, o filme não teria por que ser desaprovado, assim como a singeleza e o lirismo de suas formas dificilmente não agradariam – do cristão ao não cristão, do fundamentalista ao herético, do mais crente ao ateu: todos devem reconhecer a beleza da poética pasoliniana em O Evangelho Segundo São Mateus. Mas a importância, ou, talvez fosse melhor dizer, a verdadeira qualidade do filme está em outro lugar, a quilômetros de distância tanto do apócrifo quanto da oficialidade religiosa. 

Do Cristo interpretado por Enrique Irazoqui em O Evangelho Segundo São Mateus ressai a jovialidade e o semblante que, apesar de aparentemente imodificável nas passagens mais prosaicas do filme, pode alterar-se mediante sua impaciência com a falta de fé, com a incompreensão de alguns homens em relação às escrituras de Deus, com as eventuais más interpretações de suas palavras. Esse perfil irascível contradiz a visão comumente parcimoniosa e meiga de um Cristo sempre disposto a tudo tolerar. Em O Evangelho Segundo São Mateus seus sermões são inflamados, e seu temperamento é constantemente sujeito a descontroles (do que a expressão mais clara está na forma exaltada com que ele reage ao estado corrompido em que encontra Jerusalém). Na clássica cena, já na crucificação, do soldado romano que lhe ergue a lança com uma esponja molhada presa à sua ponta (por livre e espontânea vontade, segundo o filme), Jesus recusa veementemente a água, soltando, logo em seguida, o grito que desencadeia a fúria divina e provoca o terremoto que racha a terra. Há um quê de infantilidade nesse Cristo aqui abordado, uma figura que desperta simpatia e compaixão imediatas justamente pela pureza e pela convicção semi-infantil com que se atira às suas empreitadas. Não por acaso, é com as crianças que ele vai buscar identificação. Quando já se mostrava essencialmente destacada a presença delas no filme, com seus sorrisos e seus olhares na direção do messias, ocorre a cena em que Pedro pede à criançada para que interrompa o assédio a Jesus, o que ele próprio retruca: "Deixai vir a mim as criancinhas e não as impeçais, pois o Reino dos céus é para aqueles que se lhes assemelham". No domingo de ramos, é uma fila de crianças que se põe à frente da multidão e saúda Jesus.

Em matéria de humanização da figura do Cristo, cabe um cotejo que está na motivação principal do assunto aqui em questão. O filme de Mel Gibson que ocasionou esta pauta poderia se chamar "a paixão segundo Jesus Cristo", este tomado na condição humana, com tudo que isso implica para aquela situação (a exemplo do sofrimento na carne). A Paixão de Cristo é construído basicamente da proximidade extrema com Jesus e seu sofrimento físico, não poupando planos subjetivos e estratégias de imersão nas cenas mais violentas (a câmera assumindo o ponto de vista de Cristo num momento de queda durante a via crucis chega a lembrar o Peckinpah de Meu Ódio Será Sua Herança). No filme de Pasolini, como o próprio título já deixa claro, temos um relato em terceira pessoa, e ainda que esta pessoa esteja próxima o suficiente para assimilar detalhes, sua construção se diferencia radicalmente da crueza visual e da vulnerabilidade do corpo impingidas ao Cristo que Gibson filmou. O Evangelho Segundo São Mateus realça o simbólico e o mítico (a câmera recorrentemente enquadra o sol sobre a cabeça de Cristo), optando pela encenação sugestiva em vez da literalidade. Não se trata de fugir da violência dos atos cometidos contra Cristo, mas sim de mergulhar naquilo que o filme escolheu como maior objeto de investigação, e que definitivamente não diz respeito à porção carnal da história. Se há agressividade em O Evangelho Segundo São Mateus, esta deve ser procurada em outros aspectos que não o da tortura corporal. 



Pasolini fez um filme muito mais sobre a palavra de Cristo do que sobre sua vida ou seu calvário. À semelhança de Palavra e Utopia, de Manoel de Oliveira, o grande peso histórico da figura retratada está na palavra. Praticamente todas as falas são pregações, são fundamentos. Há uma seqüência definidora com relação a isso, na qual Jesus Cristo profere alguns dos seus sermões mais famosos em sucessivos primeiros planos dele com uma paisagem desértica às suas costas (estrutura monológica que, por si só, ressalta a palavra como elemento central), as cenas estando pontuadas por fusões e fades que demonstram a contigüidade daqueles discursos ao longo de um tempo que escoa rapidamente e que corresponde a períodos distintos da vida de Cristo. O filme quer abraçar o sentido completo das falas que se acavalam ao longo de uma vida que, embora razoavelmente curta, concentrou-se em sentenças de afirmação de bases morais para toda uma civilização. É de uma fala do próprio Cristo, e não de uma organização discursiva alheia ao personagem, que sai o reconhecimento de que a empresa messiânica trouxe, no fundo, a despeito do sacrifício de um homem pela comunhão da humanidade, a espada e a divisão. Ainda que a visão seja externa à figura de Cristo, no sentido de filtrada pelos olhos de Mateus, a proximidade com seu rosto jamais é abandonada. O primeiro plano como escala predominante, na verdade, é uma constante com todos os personagens (o filme começa com o rosto sorridente de Maria). Após o milagre da multiplicação dos pães, a câmera realiza uma longa panorâmica em que são filmados todos os apóstolos de Cristo em close-up, rosto após rosto. E em que outra parte do corpo poderia se concentrar um filme sobre a fé (lição muito cedo ensinada por Dreyer em A Paixão de Joana D’Arc)?

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segunda-feira, 26 de maio de 2014

STALKER -1979

Stalker, 1979
Legendado, Andrei Tarkovsky

Formato: AVI
Áudio: russo/alemão
Legendas: português
Duração: 163 min
Tamanho: 1,36 GB
Servidor: Mega (2 partes)

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Parte 2

SINOPSE
Em um país não nomeado, a suposta queda de um meteorito criou uma área com propriedades estranhas, onde as leis da física e da geografia não se aplicam, chamada de Zona. Dentro da Zona, segundo reza uma lenda local, existe um quarto onde todos os desejos são realizados. Com medo de uma invasão da população em busca do tal quarto, autoridades vigiam o local e proíbem a entrada de pessoas. Apenas alguns têm a habilidade de entrar e conseguir sobreviver lá dentro, são os "Stalkers". Um escritor e um cientista querem entrar e contratam um stalker para guiá-los lá dentro. No caminho até o quarto, vão passar por rotas misteriosas e muitas vezes, mutáveis.

Fonte: Adorocinema
The Internet Movie Database: IMDB - NOTA IMDB: 8.2



ANÁLISE

O que há de tão especial em Stalker, muito provavelmente o melhor filme de Tarkovski? Adianto desde já que não se trata do vasto leque de interpretações aberto a partir dele: ao contrário do que se pode pensar, Stalker não é um filme cerebróide, hermético, que segue a linha da "ficção-científica para iniciados" e faz disso seu objetivo. É antes um filme que pode ser visto abstraindo-se toda sua carga de significação mais complexa (que lá está de forma latente) e atendo-se tão-somente aos seus aspectos mais básicos. Melhor ainda: é um filme para se apreciar não pelo que ele sugere, mas pelo que ele mostra: as expressões faciais de Stalker devem ser vistas como movimentos do rosto. Se Tarkovski aqui insiste em filmar seus atores em primeiro plano – muitas vezes um rosto que surge inesperadamente do extra-campo – é porque essa expressão, que não é mais que uma expressão, contém uma substância importantíssima e de que o filme se alimentará a todo segundo. Cada vinco, cada cicatriz facial em Stalker aparece como um traço físico de raríssima força; uma concepção escultural da imagem cinematográfica, menos um acontecimento da luz do que um esgarçamento das trevas (como diria Artur Omar). Tarkovski não precisa construir através de falas (apesar delas existirem, e não em pequeno número) ou situações o que seu filme já expõe através de rostos, deslocamentos e paisagens. 

Andrei Tarkovsky

O filme gira em torno de uma idéia central perfeitamente bem acabada. Mas qual seria essa idéia? A busca da fé, a reconciliação com um imaginário fundador, a odisséia de cura dos medos e desinquietação das pulsões? (Nas grandes obras de arte, é comum perdermos de vista a idéia central, que, de tão coesa, atua até mesmo invisivelmente.) A atmosfera peculiar de Stalker emerge como resposta do meio-ambiente ao filme. Os corpos, os objetos, as paisagens, o vento, a neve, tudo no filme responde a essa idéia que não sabemos exatamente o que representa, que não mostra sua face definitiva (ainda que o final entregue algumas de suas coordenadas), mas que incrivelmente existe e é o que fornece solo firme para o filme ser o que é: um estudo cuidadoso sobre a movimentação de corpos e a topografia de uma superfície (da imagem, dos rostos, das paredes) para além de qualquer noção prévia de profundidade. Em Stalker, as aparências são o jogo atraente da vastidão de superfície, algo muito distinto da acepção pejorativa – e mais usual – que as toma em oposição a essência. A aparência é o que recobre todas as coisas, é a pele do filme, mas também sua medula (não custa lembrar que a origem embrionária do sistema nervoso central é ectodérmica). E por que ultrapassar a superfície, se quem olha (dentro do filme e para o filme) não acredita na profundidade? "Eles não têm fé!", reclama o Stalker, personagem que será descrito mais adiante. 



as o que há em Stalker?, a pergunta permanece. No excelente texto que Serge Daney escreveu na ocasião do lançamento do filme, ele começa com a definição de dicionário da palavra título. "To stalk" é um verbo inglês, que significa caminhar pé ante pé, dar passos longos, marchar titubeando. É o andar característico de quem invade um território desconhecido, e pode significar também caçar um animal ocultando-se atrás de outro. Uma forma bastante peculiar de aproximação e de perseguição – quase uma dança. Com Stalker Tarkovski consagra sua aptidão, já lindamente presente em O Espelho, para filmar deslocamentos e conformações corporais. Cada personagem tem sua marcha própria, sua envergadura física, sua "presença orgânica". Tudo é orgânico em Stalker, incluindo a água, a terra, o vento, o fogo, tudo. A recorrência dos quatro elementos na obra de Tarkovski, como bem sabemos, tem muito mais uma função física do que simbólica. A água possui uma aparição constante em Stalker, o filme mais úmido da história, e sua importância está justamente na sua natureza, ou seja, em ser uma matéria primitiva, um dos constituintes fundamentais e preponderantes de tudo que existe no mundo, a começar pelos homens. E não é só a imagem-miríade da água (lago, poça, chuva, goteira), é também seu som em diversas modalidades (ora um barulho de cachoeira, ora um gotejar que ocupa praticamente toda a banda sonora). Embora passe por entre os dedos, a água tem um peso. Embora passem perante nossos olhos e não voltem, as imagens de Tarkovski têm um peso: a densidade não só do tempo que elas materializam, mas também do estranhamento que, mesmo terminado o filme, não se esgota em nenhuma interpretação. 

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