quarta-feira, 9 de abril de 2014

A FITA BRANCA - 2009

Das Weisse Band: Eine deutsche Kindergeschichte, 2009
Legendado, Michael Haneke
Classificação: Excelente

Formato: AVI
Áudio: alemão
Legendas: português
Duração: 144 min.
Tamanho: 1,37 GB
Servidor: Mega (Parte única)

LINK


SINOPSE
1913. Em um vilarejo no norte da Alemanha vivem as crianças e adolescentes de um coral, dirigido por um professor primário (Christian Friedel). O estranho acidente com o médico (Rainer Bock), cujo cavalo tropeça em um arame afiado, faz com que uma busca pelo responsável seja realizada. Logo outros estranhos eventos ocorrem, levantando um clima de desconfiança geral.

Fonte: Adorocinema
The Internet Movie Database: IMDB - NOTA IMDB: 7.8


ANÁLISE

A frieza cirúrgica e o rigor formal no tratamento das imagens são características centrais na obra do diretor austríaco Michael Haneke, um dos mais polêmicos, inteligentes e originais autores do cinema europeu contemporâneo. Além disso, Haneke tem se mostrado um realizador fascinado pelo tema da violência, que aborda quase sempre de maneira elíptica e indireta, propondo investigações abertas e quase sempre inconclusivas sobre suas origens históricas. “A Fita Branca” (Das Weisse Band, Áustria/Alemanha/França/Itália, 2009) sintetiza com muita propriedade todas essas características, embora não esteja no mesmo patamar dos melhores trabalhos do diretor (sobretudo “Caché”, de 2005, e “A Professora de Piano”, de 2001).
Ironicamente, “A Fita Branca” caminhou célere para se tornar o mais conhecido filme de Haneke depois de vencer a Palma de Ouro no festival de Cannes de 2009. Após acumular mais alguns prêmios ao longo da temporada de festivais europeus, o longa-metragem recebeu o Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro em 2010, e transformou-se em objeto de disputa entre os governos da Alemanha e da Áustria, ambos interessados em acolher o filme como produção caseira – a primeira nação ganhou a disputa e obteve o direito de indicar o longa-metragem à disputa do Oscar, o que desagradou profundamente à co-irmã germânica, pátria de origem de Haneke (que por sua vez está radicado em Paris desde 1998).
De qualquer modo, trata-se de um filme realizado na melhor tradição deste diretor: uma obra inclassificável, dura e iconoclasta, que convida a um longo e opressor passeio por um vilarejo rural da Alemanha em 1913-1914. O lugar, habitado por pequenos núcleos familiares de agricultores humildes, funciona a partir de um sistema de organização feudal. A vila é dominada por três homens que dividem o poder de maneira infomal – um proprietário rural (Ulrich Tukur), um pastor protestante (Burghart Klaussner) e um médico (Rainer Bock). Numa leitura simbólica, poderíamos dizer que cada um representa uma forma de controle social na melhor tradição de Michel Foucault: o barão simboliza o poder econômico, o pastor é a religião, e o médico representa a ciência.
A fita branca do título se refere a um adereço que os filhos do pastor são obrigados a usar, atados ao braço, depois de protagonizarem um dos estranhos incidentes vividos pelos habitantes da vila pouco antes da explosão da Primeira Guerra Mundial. Segundo a rígida educação recebida pelas crianças da aldeia, a fita representa o ideal de pureza que cada um deve perseguir. No entanto, alguém na vila não parece muito interessado nesse tipo de raciocínio, já que incidentes violentos teimam em acontecer, quase sempre inesperadamente. Há um acidente com o médico, outro (fatal) com a esposa de um agricultor, um incêndio, a destruição de uma plantação de repolhos. Uma criança deficiente é terrivelmente mutilada; outra sofre torturas e é abandonada num celeiro. O responsável não é localizado, apesar das ameaças (veladas e explícitas) de punições duras por parte do barão.
A história é narrada pelo professor da escola da aldeia (Christian Friedel) com a voz de um homem idoso que já viu tudo na vida, mas não necessariamente entendeu o que viu. Durante os eventos narrados de memória, ele é apenas um rapaz de 31 anos apaixonado pela babá dos filhos do barão (Leonie Benesch). Os dois têm, de certa forma, o único relacionamento aparentemente saudável entre os habitantes da aldeia. As demais famílias, criadas à base de castigos, privações e falta de carinho, enfrentam todo o tipo de problemas: incesto, alcoolismo, adultério, violência física e moral.
Aos poucos, o professor começa a desconfiar que os incidentes violentos podem ter alguma relação com as crianças do lugar. O filme não sugere isso de forma ostensiva, mas Haneke é claro o suficiente para nos apresentar os acontecimentos como uma espécie de explicação antropológica para a explosão do nazismo. O diretor austríaco parece dizer o seguinte: junte uma educação repressora e autoritária com uma crise econômica, social e política sem precedentes (crise esta que aparece sob a forma da guerra, mencionada nos noticiários ao longo do filme), e o que se tem é um cenário perfeito para o surgimento de um regime fascista.
Tudo isso é filmado com o tradicional rigor formal de Haneke: câmera fixa, tomadas longas, abundância de planos gerais, composições pictóricas impecavelmente construídas com grande profundidade de campo (efeito amplificado pelo uso do formato Super 35 na captação de imagens, e também amplificado pelo preto-e-branco, duas características que diminuem a necessidade de luz artificial durante as gravações e aumenta a área em que a câmera consegue manter o foco), iluminação expressionista repleta de luzes fortes e grandes áreas de sombra. O elenco, formado por atores de rostos duros instruídos a atuar de forma contida, acentua ainda mais o clima de frieza cirúrgica característico da obra de Haneke. Há pelo menos um par de cenas antológicas – a discussão dura entre o médico e sua amante, perto do final do filme, é de uma perversidade tipicamente hanekeana – e um final ambíguo perfeitamente adequado ao filme e à obra de Haneke como um todo.
Embora chamar “A Fita Branca” de filme de suspense seja obviamente colocar um rótulo redutor num longa-metragem que é muito mais do que isso, também é evidente que Haneke bebeu desta fonte. Parece claro que ele viu “A Vila dos Amaldiçoados” (1960), outro filme sobre um vilarejo rural onde as crianças são elemento-chave para a solução do mistério, e há elementos na trama que evocam a atmosfera de “A Vila” (2004). De certa forma, “A Fita Branca” faria uma sessão dupla perfeita com “O Ovo da Serpente” (1978), de Ingmar Bergman, também um filme que se dedica a examinar a sociedade alemã pré-nazista, só que de uma perspectiva mais urbana. Além e acima de tudo isso, sobretudo, destaca-se claramente a noção de que a combinação crianças + violência é uma constante nas produções do diretor austríaco, e nesse sentido “A Fita Branca” pode ser compreendido como filme-irmão de “Caché” (2005). Ótima experiência cinematográfica, mas prepare-se para suar na cadeira.

Análise retirada do site Cinereporter































































































































































Um comentário:

  1. Considero este como um grande filme de Haneke, justamente pela influência de Bergman. Agora eu não consegui suportar o filme "Violência gratuita", realmente me senti uma cúmplice.

    ResponderExcluir

Política de moderação do comentários:
A legislação brasileira prevê a possibilidade de se responsabilizar o blogueiro pelo conteúdo do blog, inclusive quanto a comentários. Dessa forma, o Convergência Cinéfila reserva a si o direito de não publicar comentários que firam a lei, a ética, ou quaisquer outros princípios da boa convivência. Para a boa convivência, o Convergência Cinéfila formulou algumas regras:
Comentários sobre assuntos que não dizem respeito ao filme postado poderão ser excluídos;
Comentários com links serão automaticamente excluídos;
Os pedidos de filmes devem ser feitos no chatbox.

Att.,
Convergência Cinéfila