Her, Legendado, 2013, Spike Jonze
INDICAÇÃO DA SEMANA!
Indicados nas seguintes categorias para Oscar 2014: Melhor Filme, Roteiro Original, Trilha Sonora Original, Canção Original ("The Moon Song", de "Ela" – Karen O - música e letra - e Spike Jonze -letra), Design de Produção.
Classificação: Excelente

Formato: AVI (Xvid exclusivo para exibição)
Áudio: Inglês
Legendas: Português
Duração: 126 Min
Tamanho: 686 Mb
Servidor: MEGA (2 Partes)
Links:
Parte 1
Parte 2
Sinopse: Em um futuro não muito
distante, o escritor solitário Theodore compra um novo sistema
operacional desenhado para atender todas as suas necessidades. Para
surpresa de Theodore, começa a se desenvolver uma relação romântica
entre ele e o sistema operacional.
Fonte: Cineplayers
The Internet Movies Database: IMDB - Nota Imdb 8.6
Crítica:
Tudo o que você precisa é do amor. Frase clássica em música dos The
Beatles e mantra que é repetido geração após geração – conhecendo as
pessoas ou não a tal música. O problema é que a afirmação de tão
verdadeira, se torna muitas vezes fonte de sofrimento. Muito sofrimento.
A condição humana de busca pelo amor e seus descaminhos rendeu e ainda
vai render muitas histórias. E chega a assustar quando uma obra como
Her
aparece. Porque apesar de ser uma ficção, ela torna de forma muito
exata muito do que acontece e do que vai acontecer na vida real. Mais
uma obra-prima de uma das mentes mais criativas das últimas décadas, o
diretor e roteirista
Spike Jonze.
A HISTÓRIA: O rosto de Theodore Twombly (
Joaquin Phoenix)
ocupa toda a tela. Ele lê um texto que parece fazer parte de uma carta
dirigida à Chris. O texto fala sobre lembranças do relacionamento que,
agora, está completando 50 anos. Ao lado da carta, que está sendo
redigida com a letra de Loretta, fotos do casal com os nomes “Chris” e
“Loretta” identificados no computador de Theodore. Acima das fotos,
algumas “linhas gerais” da correspondência, como “amor da minha vida” e
“parabéns pelo aniversário de 50 anos”. Após terminar de declamar o
texto, Theodore pede para que a carta seja redigida. Em seguida, ele
começa a criar outra carta. A câmera se afasta, e vemos vários cubículos
com pessoas fazendo o mesmo que Theodore. Solitário, em breve ele terá
uma oportunidade de viver uma relação que esboça os sentimentos que ele
quis imprimir naquela correspondência.
VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes
que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por
isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Her): Quando
terminei de assistir a este filme, fiquei em dúvida sobre como começar
este texto e mesmo sobre a nota que deveria dar para a produção – um
problema recorrente quando eu gosto muito do que assisto. Afinal, não
queria ser injusta com uma obra tão madura, instigante e que segue a
linha que eu gosto de cinema: de filmes que são, ao mesmo tempo,
surpreendentes e humanos, filosóficos. Que falem da gente, de nossas
inquietudes, possibilidades e limitações.
Sou fã de Spike Jonze desde que ele dirigiu
Being John Malkovich, uma das viagens da mente criativa do roteirista
Charlie Kaufman. Depois ainda viria
Adaptation., outra parceria de Jonze com Kaufman. Perdi
Where the Wild Things Are porque, admito, a ideia do filme não me atraiu muito. Mas agora, de olho nas produções cotadas para o
Oscar, tive o prazer de “reencontrar” Jonze.
Tentei saber pouco sobre Her antes de assistir ao filme. Ouvi apenas
que a história se passava em um futuro não muito distante. De fato, isso
é verdade. E por este futuro estar tão próximo, é possível identificar
vários elementos do presente no roteiro brilhante de Jonze. Para
começar, Theodore utiliza um dispositivo que se assemelha muito às
últimas gerações de smartphones – especialmente o iPhone da Apple, que
já utiliza o reconhecimento de voz. Pois bem, o “leitor de e-mails e de
notícias” ao qual Theodore sempre recorre é uma pequena evolução do que
temos hoje.
Mas o essencial de Her surge na relação que o protagonista e várias
pessoas como ele desenvolvem com a última novidade entre os conectados
com as tecnologias mais modernas, o OS1, o primeiro “Sistema Operativo
de Inteligência Artificial” do mercado. Várias experiências envolvendo
inteligência artificial estão sendo desenvolvidas nas últimas décadas e o
investimento nesta área só tende a aumentar. Então é assustadoramente
viável o que vemos no roteiro de Jonze.
Só que antes de falarmos da relação entre Theodore e Samantha (com voz de
Scarlett Johansson),
vale voltar um pouco mais na história e fazer um perfil do protagonista
desta produção. Theodore é um sujeito que vive da casa para o trabalho,
quase não tem relações pessoais e luta para enfrentar a realidade de
que o casamento com Catherine (
Rooney Mara)
terminou. Entre o trabalho e a casa, ele pega transporte público e
utiliza a última geração de smartphone para se atualizar sobre as
notícias. Chegando em casa, se distrai com uma versão um pouco mais
moderna que as atuais de videogame. Quantas pessoas assim existem,
atualmente, no mundo? E quantas vão existir dentro de algumas décadas?
Na fase atual, Theodore pode ser considerado um sujeito solitário. As
únicas interações com humanos que ele tem, cara-a-cara, são com o chefe
direto dele na agência que produz cartas pessoais, Paul (
Chris Pratt), e com a amiga do tempo da faculdade, Amy (
Amy Adams) e o marido, Charles (
Matt Letscher),
que vivem no mesmo prédio que ele. Mas ainda que ele tenha estas
relações, nenhuma delas parece profunda. E Theodore não parecer ser uma
exceção. Neste contexto em que os indivíduos tem relações superficiais,
apesar de seguirem carentes de afeto, de carinho e de amor, é que surge a
inovação do OS1.
Como se você escolhesse um avatar em um jogo qualquer, Theodore
prefere que o sistema que ele comprou tenha uma voz feminina. E é assim
que surge na vida dele Samantha. (SPOILER – não leia se você não
assistiu ao filme). Pouco a pouco a inteligência artificial vai
evoluindo e aprendendo, não apenas com e sobre Theodore, mas muito além
dele ao conectar-se com outras personalidades como ela na rede. Daí que
se desenvolve a genialidade de Her. Theodore encontra em Samantha a
“solução” para quase todos os seus problemas. Afinal, ela nunca vai lhe
dizer não, ou desaparecer… estará, virtualmente, sempre disponível e
amorosa, compreensiva, uma voz “amiga” para aconselhar aquele homem
cheio de dúvidas, aspirações e talento.
Pouco a pouco, além de amiga, Samantha se torna “amante” e desenvolve
uma ligação que chega a ser considerada uma relação amorosa por
Theodore. Achei interessante como a sociedade de Her está “desenvolvida”
ao ponto de que Theodore não fica com medo de assumir que está se
relacionando com um “sistema operativo”, ou seja, com uma máquina em
última instância. Quando ele diz para os outros que Samantha é um OS1,
pessoas como Paul reagem bem à novidade. Apenas Catherine, conhecendo
bem o quase-ex-marido, reage de forma negativa, jogando na cara de
Theodore que ele não sabe lidar com emoções reais. E bingo!
Este é um dos pontos mais fortes do filme. Como uma espécie de
crítica para o nosso futuro imediato, mas que guarda grande relação com o
presente, Her questiona o tipo de relações que queremos, que
necessitamos para evoluir. Theodore viver tendo Samantha como sua
“alma-gêmea” é algo possível, mas que o torna muito limitado. Afinal,
amar quem só concorda com a gente, ou que nos “serve”, é fácil. Mas as
relações humanas existem justamente para aprendermos com o que é
diferente, com o que nem sempre nos agrada e com o que se volta difícil.
Há cenas verdadeiramente “chocantes” em Her. Como aquela em que
Theodore fica descontrolado com o “sumiço” de Samantha. Jonze aproveita a
ocasião para mostrar com muito mais força algo que já tinha revelado de
forma rápida anteriormente: todas as pessoas caminhando para os seus
compromissos ou para casa conectadas em seus aparelhos e, aparentemente,
à sua própria OS.
Como agora, quando vemos várias pessoas em uma mesa de bar com os
seus smartphones e sem conversar entre si, na sociedade de Her os
indivíduos de carne e osso não interagem, muitas vezes se quer se olham.
Todos estão muito ocupados com a tecnologia e com os seus “parceiros
perfeitos” criados através de inteligência artificial. Mas a pergunta
que Her levanta e que deixa para espectador responder é: estas relações
são reais?
Quero voltar um pouco mais na análise, outra vez, para destacar algo
que achei brilhante na escolha de Jonze: fazer de Theodore um escritor
de cartas pessoais que reproduzem, entre outros elementos, inclusive a
caligrafia do remetente. Desta forma, o diretor e roteirista conseguiu
algo genial: uniu uma das práticas mais antigas, possível desde a
invenção do alfabeto e do papiro, com o que há de mais moderno na
tecnologia. Mas Theodore não é um “escrevinhador de cartas” (para usar
uma lembrança do genial Central do Brasil) porque as pessoas do futuro
visto em Her não sabem escrever.
Não. Ele é um escrevinhador porque ninguém mais tem tempo de parar e
mandar uma carta para quem se ama. Isto aconteceu como efeito imediato
do surgimento do e-mail, e parece estar a cada ano pior. Ao mesmo tempo,
vemos a alguns movimentos “retrôs”, que gostam de resgatar hábitos,
objetos e produtos do passado. Theodore consegue, sozinho, fazer tudo
isso. Achei brilhante.
Como um romancista, o protagonista de Her cria breves peças de ficção
utilizando poucos elementos que lhe são passados pelas pessoas que
contratam o serviço do envio de cartas personalizadas. Dito isso, acho
propício voltar para aquela pergunta fundamenta: a relação de uma pessoa
com o OS que ela comprou pode ser considerada uma relação real? Vivendo
uma fase complicada, de insegurança e solidão, Theodore não valoriza o
próprio trabalho. Mas Samantha percebe que ele tem potencial e acaba
agindo para que o escrevinhador de cartas tenha o trabalho valorizado
por uma editora – curioso que, como as cartas, os livros seguem firmes e
fortes.
Então Samantha tem uma influência direta na vida de Theodore. O mesmo
acontece na resolução do divórcio dele. Além disso, e esse eu acho o
ponto mais importante, Theodore vive emoções reais na interação com
Samantha. Há cenas verdadeiramente incríveis dos dois “passeando por aí”
– com a sacada dela compondo músicas para marcar os momentos como
alguns dos pontos fortes do filme. Se Theodore ri do sarcasmo de
Samantha, se preocupa com ela e fica angustiado quando eles não estão
bem, estes sentimentos não são reais? E se os sentimentos são reais, a
relação também não é? Eis o ponto-chave do filme.
Cada um vai responder a estas perguntas da sua maneira. Mas para mim,
não há uma relação real com uma máquina, ou com a virtualidade – do
contrário, teríamos “relações reais” com um videogame. Você pode sentir
diferentes emoções, mergulhar em realidades criadas, mas nunca será uma
relação verdadeira como a com um humano, que é complexo e, muitas vezes,
imprevisível. Pelo simples fato que a inteligência artificial é fruto
de uma sequências de parâmetros e processos criados pelo homem e que tem
uma resposta previsível – e mesmo que ela “avance” sozinha, como
acontece em Her e em outros filmes do gênero, não dá para dizer que ela
fuja das regras iniciais impostas. Uma exceção talvez seja o computador
HAL de
2001: A Space Odyssey.
Agora, e o que dizer sobre as nossas próprias reações? Em certo
momento, fica no ar a pergunta de quanto o que nós fazemos, pensamos e
como sentimos também não é programado? Seja por nossos instintos,
influências de criação familiar ou histórico de vida, ou mesmo pela
evolução da nossa espécie. Mas especialmente os neurologistas vivem
explicando como reagimos de certas maneiras ao prazer e ao perigo por
uma herança ancestral. Visto deste ângulo, quanto de fato não agimos de
forma programada como Samantha e os demais OS’s?
Por minha parte, acho sim que muito do que fazemos é programado. Mas
há sempre o elemento-surpresa, a reação diferenciada que podemos ter não
apenas pela nossa capacidade de aprender com os próprios erros, mas
também com a nossa vontade de fazer além do que está previsto que
façamos. Temos a rara e magnífica possibilidade de escolher. Só que aí,
no final de Her, estas mesmas qualidades que são típicas do ser humano
também acabam marcando uma certa atitude das OS’s… e agora, cara-pálida?
O que acaba nos tornando únicos? E de fato, somos únicos?
Além destas questões filosóficas, para mim Her tocou fundo nas
questões que eu citei lá no começo deste texto: de como todos nós
procuramos o amor, e como esta busca nos trás alegrias e também
sofrimento. Não importa onde ou como você encontra o amor, ou quantas
vezes ele possa acontecer em sua vida, mas somos movidos pela busca por
ele. O personagem de Theodore é complexo porque está lidando com a
perda, mas também se anima com as novas possibilidades de amar. Sem
saber que, no fundo, a busca dele por amor acaba sendo de
autodescoberta.
A personagem de Catherine aparece pouco, mas tem uma presença
devastadora. E esta é a potência de quem nos conhece bem. Mesmo
demorando para entender que nunca terá mais o mesmo que teve um dia com
Catherine, Theodore aprende na reflexão sobre o que eles tiveram um
pouco mais sobre as suas próprias capacidades e limitações. E esta é uma
das belezas do amor. Nos ensinar tanto.
No final de Her, Theodore está muito mais preparado para viver uma
história real do que estava no início. Por incrível que possa parecer,
mas foi um sistema operacional que o ajudou no processo – ao invés de um
psicólogo ou psiquiatra. Os recursos para a ajuda mudam, e são
adaptados para cada pessoa e o seu tempo. Mas o importante é que, no
final, há sempre um horizonte que pode ser compartilhado. Her trata de
tudo isso, e de uma maneira criativa, atraente e inteligente. Alguém
precisa de algo mais?
NOTA: 10.
Fonte: Moviesense - Blog em wordpress