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domingo, 1 de maio de 2016

SR. NINGUÉM, 2009, 2° REPOSTAGEM (Versão Estendida)




Mr. Nobody, Legendado, 2009, Jaco Van Dormael

Classificação: Excelente

Formato: AVI (Xvid)
Áudio: Inglês
Legendas: Português
Duração: 2h21min.
Tamanho: 1.52GB
Servidor: Mega (5 Partes)
Links:

Parte1
Parte2
Parte3
Parte4
Parte5

Sinopse: "Sr. Ninguém" (Mr. Nobody, 2009) é um surprendente filme onde o diretor belga Jaco Van Dormael bebe nas fontes mitológicas do Gnosticismo basilidiano: um protagonista prisioneiro na principal falha cósmica do universo físico (a flecha do tempo) vê sua existência como um gigantesco hipertexto com diversos futuros alternativos resultantes das decisões. O filme narra a luta de um homem contra o caos e o aleatório que interferem no livre-arbítrio das decisões.
Fonte: Cine Gnose
http://www.imdb.com/title/tt0485947/?ref_=nv_sr_1
 INTERNET MOVIES DATABASE - Nota Imdb 7.9

Análise:
São as escolhas que moldam a vida, que a fazem avançar, menos para Nemo Nobody, ao que parece. Jared Leto é o protagonista de Sr. Ninguém, filme de Jaco Van Dormael, de 2009, que chegou finalmente aos cinemas portugueses.
Tudo acontece num futuro não muito distante, onde Nemo é o homem mais velho do mundo e é o último mortal a conviver com as pessoas imortais. Ao longo de cerca de duas horas e meia de filme, Nemo irá relembrar os seus anos reais e imaginários, de infância, adolescência e casamento.
Nos últimos anos, poucos são os filmes com um imaginário tão forte e, ao mesmo tempo, que tocam tão fundo. Sr. Ninguém é, para já, um exemplo de originalidade e, ao mesmo tempo, de coerência no meio de muitos paradoxos. Deixando de parte a componente futurista da longa-metragem, que aqui se encontra muito presente, onde a imortalidade é algo tão comum que o único homem ainda mortal se torna o centro das atenções e as suas palavras são acompanhadas em directo, para satisfação da curiosidade mórbida de um povo, Sr. Ninguém vai muito mais além.

Aqui, o tempo não é constante e a realidade também não. Está-se perante várias dimensões, histórias paralelas e não sabemos qual delas é real. Sonho, ilusão, alucinação, delírio, imaginação... tudo se mistura também na nossa cabeça, tal como na de Nemo Nobody. A infância de Nemo, a relação dos pais, a primeira decisão importante a ser tomada que parece desencadear muitas indecisões, muitas possibilidades; a adolescência, amores e desamores; casamento(s)... vamos conhecer as vidas do protagonista, que as conta a um jovem jornalista, mas teremos as mesmas dúvidas: afinal, como é que tudo isto pode ter acontecido? Onde está a verdade, a realidade?
As coincidências sucedem-se em todas as possibilidades de vida a que assistimos, e as escolhas parecem ter sido sempre impossíveis para este homem de 118 anos. Para quê e por quê escolher? Nemo Nobody faz-nos crer que podemos ter tudo, sem precisar de optar. Contudo, e no meio de muita estranheza, a lógica nunca se perde.

Em Sr. Ninguém há uma grande atenção ao detalhe, que nos aguça os sentidos. São inúmeras as sensações que as imagens despertam em quem assiste. Jaco Van Dormael oferece-nos um filme com uma sensibilidade e delicadeza quase raras. A simples lavagem automática de um carro pode tornar-se claustrofóbica, e ao mesmo tempo artística.
Visualmente, o filme é um prodígio, de uma beleza pouco comum. A câmara liga-nos ainda mais à imagem através de planos, por vezes, hipnotizantes e envolventes. As cenas entre Nemo e Anna são onde mais isso se sente. Os efeitos especiais são igualmente de destacar e o trabalho de montagem é fascinante.
Nas interpretações, Jared Leto volta aqui a provar o seu talento na representação como Nemo Nobody, juntando-se-lhe os nomes de Toby Regbo (Nemo adolescente) e Thomas Byrne (Nemo com nove anos), que nos proporcionam grandes momentos. O casting foi certeiro também na escolha das actrizes que interpretam Anna adulta e adolescente, respectivamente, Diane Kruger e Juno Temple.
"Na vida só temos um take, se estiver mau temos de o aceitar" diz alguém a Nemo Nobody a certo momento. Uma frase que parece servir de lição para o próprio espectador, num filme que não quer conhecer limites para o possível. Até ao fim, faz-nos reflectir, e deixar-nos-á com muitas questões: Afinal, o que é real, o que faz parte do imaginário? Sr. Ninguém tem esse poder, alimenta a nossa mente, pela profundidade argumentativa, beleza visual e pela união perfeita de ambas.
Fonte: Hoje Vi(vi) um filme - blog

http://hojeviviumfilme.blogspot.com.br/2012/10/critica-sr-ninguem-mr-nobody-2009.html 












domingo, 31 de agosto de 2014

SOUL KITCHEN - 2009

Soul Kitchen, legendado, 2009, Fatih Akin.
i

Classificação: Excelente
Formato: AVI Xvid (576x304)
Áudio: Alemão
Legendas: Português
Duração: 99 min.
Tamanho: 716MB
Servidor: MEGA (3 Partes)
Links:

Parte 1
Parte 2
Parte 3



Sinopse: Depois de sua namorada o trocar por um emprego em Shanghai, a vida de Zinos, jovem de origem grega, dono do restaurante Soul Kitchen, entra em crise e ele decide vender o estabelecimento. Nas três semanas antes de fechar as portas, mudanças repentinas começam a acontecer: o novo chef cozinha o que ele sempre quis fazer, um novo DJ agita o espaço levando os clientes a dançarem depois das refeições, artistas passam a exibir seus trabalhos - e todos estão gostando. Rumores sobre o cult Soul Kitchen se espalham por Hamburgo. Zinos percebe que é bobagem vender o restaurante, mas talvez seja tarde demais.

Fonte: Cineplayers
The Internet Movies Database - IMDB: Nota Imdb 7.3

Crítica:
Um grande diretor pode ser identificado pelo talento que ele demonstra ao narrar uma boa história envolvendo, para isto, o espectador com cada elemento que o cinema tem a oferecer em seu caldeirão de recursos. A filmografia que Fatih Akin vêm construíndo nos últimos 15 anos comprova que ele já pode ser enquadrado nesta categoria. Ainda que menos “conceitual” que seus filmes anteriores, Soul Kitchen segue demonstrando a vocação de Akin para contar histórias. Que aparentemente são simples, mas essencialmente belas, e que exploram os encontros e desencontros tão típicos da vida. Mais uma vez este diretor alemão de origem turca consegue, com maestria, conduzir o espectador pela mão com linhas de roteiro perfeitas, uma ótima condução de atores, cenas de beleza sutil e que demonstram fluidez, e uma trilha sonora intocável. Outra de suas obras contagiantes, não há dúvidas.
A HISTÓRIA: Zinos Kazantsakis (Adam Bousdoukos) dá o sangue em seu restaurante em um bairro operário de Hamburgo. Proprietário, gerente e “cozinheiro” do local, Zinos serve comidas de preparo rápido – a maioria delas, frituras. Para isso, ele tem uma clientela fixa e pequena. Depois de mais um dia de trabalho, ele vai até um restaurante chique da cidade para o jantar de despedida da namorada, Nadine Krüger (Pheline Roggan). No caminho, ele encontra um antigo colega do tempo do colégio, Thomas Neumann (Wotan Wilke Möhring). No restaurante, ele vê uma cena inusitada envolvendo o chef Shayn Weiss (Birol Ünel). No dia seguinte, Zinos recebe a visita de seu irmão, o presidiário Illias (Moritz Bleibtreu). Estes e outros encontros e desencontros na vida de Zinos ocorrem de maneira muito acelerada, mudando a sua rotina de maneira decisiva.
VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Soul Kitchen): Este filme de Fatih Akin quase pode ser considerado um exemplar perfeito de uma “comédia de erros”. Acelerada, com novos personagens aparecendo rapidamente sob os olhares atentos do espectador, a narrativa de Soul Kitchen vai agravando, colheirada por colheirada, a história de seu protagonista. Parece que a maré de “azar” de Zinos Kazantsakis não tem fim. E que o seu destino é realmente a sarjeta… mas, como nos filmes anteriores de Fatih Akin, é preciso estar atento aos detalhes. Porque por mais que as coisas parecem ir piorando na realidade de Zinos pouco a pouco, paralelo a isso surgem oportunidades e encontros promissores.
Fatih Akin tem um certo gosto por narrativas paralelas, encontros e desencontros e, principalmente, o peso que ele dá para as pequenas escolhas que a pessoa faz na vida. Como no perfeito Auf der Anderen Seite (comentado aqui no blog), em Soul Kitchen, novamente, os personagens principais são ao mesmo tempo “donos” e “vítimas” de seus destinos. O que o diretor e roteirista parece querer nos dizer sempre é que, por mais que a vida tenha a sua dinâmica e sua lógica próprias, nós também somos capazes de dirigí-la. Afinal, no “palco” das nossas vidas, somos atores fundamentais do nosso drama e da nossa comédia.
Em Soul Kitchen, cada pequena escolha, cada gesto do protagonista leva a um novo evento. Que pode ser problemático ou uma solução. Algumas vezes na história – como na vida real -, Zinos apenas reage ao que os acontecimentos lhe apresentam. Na interação com as outras pessoas, isso Fatih Akin gosta de ressaltar, é que se faz a existência. E mais uma vez, o roteiro do diretor, escrito ao lado do ator principal desta produção, Adam Bousdoukos, revela uma gama curiosa de personagens interessantes, ricos em suas vivências e histórias e que, ao se encontrarem e desencontrarem ao longo do tempo, provocam no público compaixão, risadas legítimas e alguns momentos de surpresa.
Um dos aspectos que eu achei mais curiosos deste filme é a forma com que Fatih Akin ressalta os “acidentes de percurso” e/ou os encontros inusitados que seus personagens vão tendo pelo caminho. Metade das relações do protagonista são, digamos assim, “previsíveis” – cito, nesta situação, seus encontros com o irmão, a garçonete Lucia Faust (Anna Bederke), o construtor de barcos Sokrates (Demir Gökgöl), o barman Lutz (Lukas Gregorowicz) e a namorada de Zinos. Mas outras relações, que acabam sendo decisivas para a história, acabam se desenvolvendo “por acaso”, como ocorre com o ambicioso e trapaceiro Thomas Neumann, o chef de cozinha Shayn e a massagista Anna Mondstein (Dorka Gryllus). São estas “novas aquisições” na vida de Zinos que acabam modificando a sua realidade de forma fundamental.
Assim, no nosso dia a dia, também nos encontramos com pessoas que podem alterar definitivamente a nossa realidade. Mas para que isso aconteça – e o diretor deixa claro em dois momentos “apaixonados” do filme -, é preciso que as pessoas estejam abertas a tudo de revolucionário que novos encontros podem nos trazer. Nem que estas “novidades” surjam apenas para reavaliarmos o que tínhamos e para onde queremos ir. O que Soul Kitchen e outros filmes de Fatih Akin ressaltam é que não há interação, um encontro verdadeiro entre duas pessoas que não resulte em uma realidade modificada.
Outra característica marcante deste diretor alemão é o de não evitar a dor, a perda e as “desgraças” da vida. Para ele, tão importante quanto a alegria e o amor, é o aprendizado, as oportunidades e os efeitos que as tragédias, as perdas e os danos têm nas histórias das pessoas. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Em Soul Kitchen, algumas vezes, parece que Fatih Akin sente um certo prazer mórbido em fazer os seus personagens passarem por maus bocados. Mas o curioso deste filme, mais do que em Auf der Anderen Seite, é que o diretor e roteirista revela, acima de tudo, uma mensagem de esperança, de alegria. Afinal, Soul Kitchen é, acima de tudo, uma história de amor. Feita de percalços, dores, desafios, mas uma história em que o amor, a generosidade e as convicções do protagonista não se perdem nunca. Um filme essencialmente esperançoso.









domingo, 16 de março de 2014

NINFOMANÍACA - VOLUME II - 2014

Nymphomaniac - Vol II, Legendado, 2014, Lars Von Trier

Classificação: Bom
Formato: AVI (Xvid)
Áudio: Inglês
Legendas: Português
Duração: 123 Min.
Tamanho: 832 MB.
Servidor: MEGA (2 Partes)
Links:

Parte 1
Parte 2

Sinopse: A continuação da história de vida de Joe investiga os aspectos mais sombrios de sua vida adulta, e o que a levou aos cuidados de Seligman. Últimos três capítulos de "Ninfomaníaca".
Fonte: Cineplayers
The Internet Movies Database: IMDB - Nota Imdb 7.3


Crítica:
 Por Enock Carvalho



Joe
Em uma matéria da Folha de São Paulo datada de 12 de março de 2014 uma mulher chamada Magali conta: “O crack tira o apetite e mata todos os desejos, menos o de buscar por mais pedra. Já roubei e me vendi por R$ 1 ou um farelo de crack. Já vi matar e quase morri. Fui estuprada não sei quantas vezes. Nada me fez parar”. Magali provavelmente não sabe, mas ela é como a personagem Joe. A única diferença talvez é que uma sofre na realidade, enquanto a outra tem o prazer de existir numa ficção.
No Volume 1 de Ninfomaníaca, Lars Von Trier construiu sua protagonista como quem come um prato quente pelas bordas com medo de se queimar. Pouco a pouco, foi revelando as histórias obscuras da jovem viciada em sexo e traçando o caminho que a levou às condições nas quais fora encontrada por Seligman (Stellan Skarsgård): machucada e desacordada em um beco frio.
É no Volume 2 que, colocando toda a história já contada pela personagem realmente no passado, o diretor mostra sua intenção real com Ninfomaníaca, com o conjunto. A versão madura de Joe, interpretada por Charlotte Gainsbourg, ganha espaço nas memórias e mergulha em temas que refletem seu verdadeiro tormento, o de não se sentir capaz de pertencer ao mundo, o de não conseguir ser mãe, o de não conseguir viver.
Menos didático que a primeira parte, são poucas as tradicionais imagens ilustrativas empregadas pelo diretor neste. Existe também uma menor distância de tempo entre os três capítulos contados pela personagem agora, dando uma leve impressão de que eles aconteceram quase que de maneira sucessivas. Mas o que realmente chama atenção é o lado moralista do diretor ficar em evidência.
Apostando menos na provocação e reduzindo as imagens de sexo explícito a meras aparições especiais, o Vol. 2 ainda assim é perturbador por conter cenas violentas de sadomasoquismo. A personagem já aceita muito bem sua condição, a qual insiste em não chamar de vício, uma vez que considera sua ninfomania algo incorrigível e parte de si. O que vemos é uma Joe que não consegue se encaixar numa sociedade que abomina suas práticas e esse é o gancho que Lars Von Trier puxa ao longo do filme.
Partindo do princípio de que sua personagem, na maturidade da vida, já aceitou quem é, o problema maior está no relacionamento com a família e com o mundo. Por outro lado, vemos uma Joe que pouco a pouco conquista seu espaço e consegue dar uma utilidade ao talento (por que não?) que ela tem. Afinal, ser uma ninfomaníaca não envolve apenas ter um desejo incontrolável pelo sexo, pela relação com outro. A masturbação, o gozo, o sadomasoquismo, são elementos que a personagem descobriu ao longo da vida e que fizeram ela reconhecer que não tinha, no fim das contas, uma doença.
Ao esquecer o amor e se entregar ao prazer do ato sexual, mesmo sem ser capaz de chegar ao orgasmo, Joe sente culpa. A grande questão em torno disso, levantada por Lars Von Trier por meio das conversas entre Seligman e a personagem, é a de que ela talvez esteja numa posição de minoria imposta pela sociedade. Seligman, um assexuado ouvinte, estuda ao longo de uma noite toda a vida atormentada de Joe para quase deixar escapar o veredicto proposto pelo diretor. Ele não precisa, contudo, fazê-lo.
Ninfomaníaca – Vol. 2 se debruça sobre toda a vida de Joe para dizer que talvez suas práticas não sejam nem um pouco abomináveis, ou sequer condenáveis, se aproximando de uma ideia feminista sobre o poder de julgar o que você faz ou não com seu corpo. O filme consegue criar uma balança e colocar de um lado Joe e toda sua história, e do outro, os homens que não precisam ser diagnosticados ninfomaníacos para equivaler a ela, pois têm práticas sexuais que a sociedade julga serem normais. 

Joe entra para a vasta coleção de personagens do diretor Lars Von Trier, como mais uma mulher imperfeita aos olhos da sociedade e que teve que pagar psicologicamente e fisicamente por isso. Foi assim com Selma Jezkova, no triste Dançando no Escuro, foi assim com Grace em Dogville, e é assim com tantas outras na vida real.

estrelas35
Fonte: Cine Marcado









sexta-feira, 14 de março de 2014

NINFOMANÍACA - VOLUME I - 2013

Nymphomaniac: Vol. I, Legendado, 2013, Lars Von Trier.
Classificação: Ótimo

Formato: AVI (Xvid)
Áudio:
Inglês
Legendas:
Português
Duração:
118 Min.
Tamanho:
808 Mb.
Servidor:
MEGA (3 Partes)
Links:

Parte 1
Parte 2
Parte 3


Sinopse:
Joe (Charlotte Gainsbourg) é uma mulher de 50 anos que decide contar a um homem mais velho (Stellan Skarsgard) sua história pessoal. Ela relata suas experiências ao longo de oito períodos da sua vida, marcados por diversos encontros e incidentes.
Fonte: Cineplayers
The Internet Movies Database: IMDB - Nota Imdb 7.6

Crítica:
"Eu descobri minha boceta aos dois anos de idade.
Ao ler a fala acima, dita pela protagonista de Ninfomaníaca, muitos espectadores provavelmente temerão confrontar um filme polêmico, grosseiro e chocante. Longe disso. Ao contrário do que a campanha publicitária do novo trabalho de Lars von Trier sugere, o longa, embora trazendo cenas de sexo (quase) explícito, só chocará as psiques mais sensíveis, já que é basicamente um estudo de personagem recheado de divagações filosóficas que usa o sexo mais como vinhetas de passagem do que como centro narrativo, criando uma experiência irregular, mas jamais desinteressante.
Escrito por von Trier a partir de sua já notória natureza depressiva, o filme tem início em uma vizinhança melancólica, marrom e chuvosa que, disposta em becos estreitos, exibe o corpo inconsciente de Joe (Gainsbourg). Resgatada por um habitante local (Skarsgård), ela passa a narrar as circunstâncias que a levaram a se transformar numa mulher coberta de sangue e traumas, deixando claro, desde o princípio, que não poupará a si mesma: “Eu sou um ser humano ruim”, afirma já de cara. A partir daí, saltamos para uma série de flashbacks que acompanham a moça da infância à fase adulta, quando passa a encarar o sexo com a diligência de uma vítima de transtorno obsessivo-compulsivo.
Episódico por natureza, Ninfomaníaca emprega a conversa entre Joe e o pacato Seligman (o personagem de Skarsgård) como âncora narrativa, usando as associações livres feitas pelo sujeito como pontes para as novas passagens – ou capítulos – da vida da protagonista. Assim, uma observação sobre a polifonia nas composições de Bach dá origem a um flashback sobre três amantes importantes na vida da garota, ao passo que as (muitas) referências a pescaria com mosca inspiram a mulher a relembrar suas primeiras buscas por múltiplos parceiros em um trem. O curioso é que estas divagações feitas por von Trier acabam se tornando atrativos à parte, mesmo que usadas como meras transições – e ver Seligman diferenciar as pessoas entre aquelas que cortam primeiro as unhas da mão esquerda e as que cortam as da mão direita é algo que eventualmente se converte em passagens que poderiam sobreviver isoladamente sem qualquer problema. De forma similar, é interessante perceber como o filme frequentemente comenta a própria narrativa, como, por exemplo, ao apontar que determinada coincidência na história de Joe é implausível apenas para observar que, para aproveitarmos melhor a experiência, devemos aceitar aqueles absurdos sem questionar.
Surpreendentemente moralista ao insistir em julgar a protagonista por suas obsessões sexuais (ela é a primeira a se condenar por elas), Ninfomaníaca é o reforço que qualquer misógino quer ouvir acerca de suas percepções equivocadas, já que Joe mente sobre o orgasmo apenas para manipular os parceiros, jogando com seus companheiros de cama apenas para mantê-los presos ao seu sexo – e, neste aspecto, é um problema grave que este “Volume 1” aborde apenas metade da trajetória da moça, já que chegamos ao fim sem que um quadro completo sobre Joe seja pintado, o que pode levar o espectador a um julgamento crítico provavelmente equivocado sobre as intenções finais do cineasta, que, aqui e ali, indica ter uma visão mais compreensiva sobre Joe.
É bom notar, por exemplo, como o diretor estabelece, logo no princípio, o prazer que a jovem vivencia ao lado do pai (Slater, delicado em sua composição) ao sentir o vento refrescar seu rosto, estabelecendo que estas sensações físicas de prazer, oriundas de uma brisa, do formato de  uma folha ou do sexo, não passam de experiências viscerais de maior ou menor gozo – e que, portanto, adicionar um julgamento moral quando surgem do sexo é algo aleatório, absurdo e injusto. Além disso, von Trier evita ao máximo glamourizar o sexo visto ao longo da projeção, retratando-o de uma forma crua que reflete a percepção da protagonista, que parece encarar o ato mais como fuga ou arma do que como experiência de prazer – e não é à toa que a perda de sua virgindade é enfocada por Ninfomaníaca como algo similar à mais entediante das equações matemáticas: a soma de fatores com dígito único.
O sexo, contudo, é apenas um dos interesses do diretor/roteirista, que emprega a estrutura do filme como ponte para discutir a diferença entre antissionismo e antissemitismo (numa clara referência à polêmica que o envolveu em Cannes, há algum tempo) ou para fazer referências a Edgar Allan Poe, que chega a originar um capítulo em preto-e-branco introduzido por uma passagem de “A Queda da Casa de Usher” e que eventualmente retrata a percepção de um personagem sobre a (falta de) dignidade da morte. Isto, claro, sem esquecer a sequência memorável que traz Uma Thurman como a representação máxima do conceito de “passivo-agressiva” e que resulta num momento de humor extremamente eficaz, ainda que incômodo.
Por outro lado, von Trier irrita em sua insistência de representar literalmente cada discussão entre Joe e Seligman, o que resulta em flashbacks dispensáveis sobre a infância deste último e em breves planos que ilustram passagens da narração (quando o sujeito pergunta “Se tem asas, por que não voar?”, o diretor exibe o insert de um aeromodelo). Estes tropeços, porém, não são suficientes para anular momentos inspirados como aqueles que trazem um grupo de garotas repetindo a máxima “Mea vulva, mea maxima vulva” ou mesmo a sensibilidade ao retratar uma mulher que encara o sexo de forma compulsiva não pelo orgasmo que propicia, mas pela fuga que representa.
O que, no mínimo, é um imenso desperdício de energia e prazer.
Fonte: Portal Cinema em Cena









domingo, 9 de março de 2014

A RAINHA MARGOT - 1994

La reine Margot, Legendado, 1994, Patrice Chéreau.

Indicado na seguinte categoria ao Oscar de 1995: Figurino (Moidele Bickel).
Classificação:
Excelente
Formato: AVI (Xvid 640x480)
Áudio: Francês
Legendas: Português
Duração: 162 Min.
Tamanho: 1.36 GB.
Servidor: MEGA (3 Partes)
Links:

Parte 1
Parte 2
Parte 3

Sinopse: No século XVI um casamento de conveniência é celebrado com o intuito de manter a paz. A união entre a católica Marguerite de Valois, a rainha Margot e o nobre protestante Henri de Navarre tinha como meta unir duas tendências religiosas. O objetivo do casamento foi tão político que os noivos não são obrigados a dormirem juntos. As intrigas palacianas vão culminar com a Noite de São Bartolomeu, na qual milhares de protestantes foram mortos. Após isto, Margot acaba se envolvendo com um protestante que está sendo perseguido.
Fonte: Cineplayers
The Internet Movies Database: IMDB - Nota Imdb 7.5

Crítica:
Ao olhar pela janela, as ruas de Paris parecem calmas, vazias. O silêncio, no entanto, engana. Pouco antes da meia noite, os sinos de uma igreja próxima ao palácio do Louvre dão o sinal para tropas que avançam na sombra. Os momentos seguintes são de pânico, gritos medonhos, lutas de espada, corpos seminus espalhados pelo chão, pescoços degolados e eventuais fugitivos, que correm ensanguentados e atônitos. Na passagem de 23 para 24 de agosto de 1572, há exatos 440 anos,  acontecia a noite de São Bartolomeu, um dos principais massacres da história da França. Sob ordens do rei Carlos IX, católicos assassinaram cerca de três mil protestantes. O episódio ocorrido durante as guerras de religião (1562-1592) foi retratado pelo romance A rainha Margot (1845), de Alexandre Dumas,  adaptado fielmente para o cinema pelo diretor Patrice Chéreau, em 1993. Margot, interpretada pela encantadora atriz Isabelle Adjani, é o apelido de Margarida de Valois (1553-1615), irmã de Carlos IX e filha do rei Henrique II com Catarina de Médecis. A posição nobre fez com que ela testemunhasse e fizesse parte – ainda que forçosamente – das disputas por poder alimentadas pelos conflitos religiosos. Menos de uma semana antes da noite de São Bartolomeu, Margot havia sido obrigada a se casar com o líder protestante Henrique de Navarra (Daniel Auteil), numa tentativa de manter a paz no reino. Logo no início do filme, Margot avisa ao marido: “É um casamento pela paz. Ninguém me obriga a dormir com você”.
A união, idealizada por Catarina de Médecis, de nada adiantou para diminuir a tensão no reino. O filme não mostra, mas a rainha-mãe já havia feito Carlos IX assinar, dois anos antes, o tratado de Paz de Saint-Germain, concedendo liberdade de culto aos protestantes em regiões específicas e permitindo que eles fossem admitidos em empregos da administração pública. No entanto, os católicos não gostaram das concessões e os protestantes não as acharam suficientes. E o conflito continuou.
A origem das disputas, que aconteciam também em outros países da Europa, está no ano de 1517, quando Martinho Lutero proclamou seu rompimento com a Igreja Católica. João Calvino, em Genebra, logo o seguiu, inspirando e coordenando os protestantes franceses. Os massacres pelo reino foram generalizados.
Catarina de Médecis foi uma figura importante na busca pela paz. No filme, no entanto, o destaque é dado a seu lado manipulador, brilhantemente encarnado pela atriz italiana Virna Lisi. Ela aparece como culpada pela morte de pelo menos três importantes personagens históricos, incluindo o próprio filho, Carlos IX.
No longa-metragem, na obra de Dumas e, possivelmente, também na vida real – como ilustram livros como Histoire de France, de Pierre Miquel -, a rainha-mãe teria encomendado o assassinato do almirante Coligny, importante chefe protestante. Dumas relata a grande admiração que Carlos IX tinha pelo almirante, chamando-o inclusive de “meu segundo pai”. Na adaptação para o cinema, fica claro que Catarina não teria gostado da aproximação, que permitia a Coligny ter forte influência sobre o rei. No dia 22 de agosto, a tentativa de assassinato acabou falhando e, ao ser descoberta pelos protestantes, gerou grande revolta.
A partir deste ponto, outro personagem que ganha espaço no filme é o estranho rei Carlos IX (Jean-Hugues Anglade). Instável, infantil e certamente despreparado para o posto, ele vive cansado da influência da rainha-mãe e dos interesseiros à sua volta. Sem saber como reagir à provável revolta protestante depois do atentado a Coligny, é influenciado por Catarina e ordena que todos os chefes da religião sejam assassinados. Henrique de Navarra é um dos únicos a escapar da morte ao abandonar o protestantismo e se tornar católico. Ele repetiria o gesto alguns anos depois, já como Henrique IV da França, e diria a famosa frase: “Paris bem vale uma missa”.

Dumas e a pesquisa histórica
Alexandre Dumas tinha o hábito de criar suas narrativas baseado em documentos e, neste caso, não o fez de outra maneira. Apesar de florear e acrescentar novas situações, A Rainha Margot é um de seus romances que mais se aproxima dos fatos narrados pelos historiadores – e, em tese, pela própria Margot em um livro de memórias atribuído a ela.
A cena (tanto no livro de Dumas, quanto no filme) em que o quarto de Margot é invadido por um protestante ferido durante a noite de São Bartolomeu, por exemplo, pode ser mais do que uma invenção do escritor francês. O fato foi inspirado nas memórias da própria Margot. Dumas, no entanto, substituiu o nome citado por ela – Monsieur de Teian – pelo de Joseph La Môle, conhecido como um de seus amantes.
O problema ao se tentar entender a história oficial é que há dúvida, entre alguns historiadores, se essas memórias de Margarida de Valois foram realmente escritas por ela. A francesa Éliane Viennot, professora de literatura da Universidade de Saint-Étienne, por exemplo, publicou em 1996 um artigo defendendo a veracidade das memórias. Seja como for, o documento utilizado por Dumas tem posicionamentos importantes: Margot tira boa parte da culpa de sua mãe Catarina em relação ao massacre, e afirma que os idealizadores teriam sido seu irmão duque de Anjou (futuro Henrique III) e o duque de Guise. Este último também estaria na origem do atentado contra Coligny.

Sangue e luxúria
Dumas se apropria das informações fornecidas por Margot e por outros memorialistas, acrescentando detalhes sórdidos, enfatizados na película de Patrice Chéreau. O longa-metragem pode surpreender os fãs mais tradicionais do escritor, não acostumados a tantas cenas de violência e nudez - acentuadas por fortes insinuações de incesto e banhos de sangue sobre roupas mais brancas do que em comercial de sabão em pó (como no cartaz francês, acima). Margot seria uma libertina: dormiu com seus três irmãos, além do marido Henrique de Navarra, o duque de Guise e o conde de La Môle. Em uma das cenas mais marcantes do filme, ela é assediada pelos irmãos, que a deixam praticamente nua enquanto mostram marcas deixadas por La Môle em seu pescoço e coxas. O duque de Alençon, mais novo dos irmãos, escancara: “Se não fosse estéril, teríamos um bastardo”.
Talvez com medo de afastar as plateias mais tradicionais, o cartaz do filme foi alterado em muitos países, mostrando apenas o casal apaixonado Margot e La Môle. No entanto, mesmo os desavisados que buscam um romance calmo, segundo parece indicar o cartaz ou a capa do DVD, dificilmente se decepcionarão. Além das excelentes atuações, que renderam o prêmio de melhor atriz em Cannes para Virna Lisi, o filme consegue cativar o espectador e incentivar o interesse pelas guerras de religião.
Teria Margot relações sexuais com seus próprios irmãos? Catarina de Médicis seria a responsável por uma série de envenenamentos? Para Dumas, isso pouco importava. Ele já havia sido acusado por seus adversários de violar a história de forma insolente em outros de seus romances. Sua resposta era simples e irônica: “Reconheço que a violento, mas faço lindos filhos com ela”.
Assim sendo, Patrice Chéreau apropriou-se de uma das maiores obras de Dumas, e fez um filme que pode ser considerado, facilmente, um lindo bastardo do escritor francês.